13.6.07

Identidade Nacional - A crítica social no Romantismo

Meus monstrinhos do pântano lindos!!!!

Ainda não completamente boa da tendinite, dormindo cinco horas por noite, terminando de reformular umas coisinhas lindinhas da nossa fofíssima prova semestral, volto aqui para deixar o último conteúdo visto em slide e que estava faltando aqui: a crítica social da geração abolicionista do Romantismo.

Para começar, lembrem-se que esta geração também se chama condoreira, em decorrência das referências constantes às aves de grande altitude (o condor em especial pela imponência e por ser uma ave sul-americana), que vêem melhor do que os outros animais. Como todo bom romântico, o pessoal da 3ª geração ainda "se acha". E se acha especial exatamente como estas aves: eles acreditam que enxergam melhor que os outros seres humanos, pois eles percebem os defeitos da sociedade e hasteiam a bandeira de luta para que as desigualdades sejam combatidas. Essa bandeira é justamente hasteada através da arte, um instrumento de modificação social, na perspectiva deles.

Outro nome para este mesmo grupo de escritores é geração hugoana, nome que se refere a Victor Hugo, grande escritor francês que inspira os nossos poetas. A grande obra prima de Victor Hugo é o romance Os miseráveis. Em sua produção se destaca também O corcunda de Notre-Dame. Ambas as obras defendem os excluídos da sociedade.

Essa preocupação social dos românticos da 3ª geração faz com que eles superem, em parte, o egocentrismo que marca o seu movimento literário. Em parte porque, embora os problemas dos outros (no Brasil, a vida sofrida dos escravos) se tornem mais importante do que os problemas pessoais dos autores, e embora eles procurem produzir uma arte engajada em causas sociais, eles ainda se percebem como o poeta-gênio iluminado por Deus e superior aos outros homens, único ser a ver as coisas como ela realmente são e destinado pelo seu dom a modificar o mundo.

Vimos em sala, também, sobre Castro Alves (1847 – 1871) que:

* O poeta dos escravos é baiano de nascimento e estudou Direito em Recife e São Paulo.
* Produziu poesia lírica e social (Espumas Flutuantes e A cachoeira de Paulo Afonso), poesia épica (Os escravos) e teatro (Gonzaga e a Revolução de Minas).
* Faleceu aos 24 anos em decorrência de um tiro no pé.
* Usa uma linguagem grandiosa:
**Gosto acentuado pelas hipérboles (exagero)
**Presença constante de espaços amplos (mar, céu, infinito, deserto)
**Grande carga emocional na denúncia dos problemas sociais (manifesta principalmente através de exclamações e de interjeições).

Para terminar, fiquem com um dos textos deste autor que foram lidos em sala. Mais textos dele estão disponíveis nos dois livros didáticos indicados no início do ano e na internet. As obras completas de Castro Alves, por exemplo, vocês podem encontrar no site Jornal de Poesia (recomendo muito!)

Navio negreiro (excerto)

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...


Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...


Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!


E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

Fazei-os mais dançar!..."

6.6.07

Identidade nacional - A crítica social no Arcadismo

Olá, pequenos gafanhotos!

De volta a essa vida de nerd! Meu fofíssimo voltou da manutenção aparentemente lindo, cheiroso, novinho e sem danos! Espero que sem dano nenhum mesmo, mas não tem nem como confirmar por enquanto. Bora ver.

Aproveitem esse lapso da greve para estudar. Provavelmente as datas dos simulados estarão mantidas então botem pra quebrar nos estudos daqui pra segunda. E moderação no São João da Capitá: pouco sono e muito quentão fazem mal aos neurônios!

Vamos ao que interessa: devido à minha crise desinformatizada eu não consegui postar os slides da aula de Arcadismo. Aqui estão: divirtam-se! Vou esperar um pouco e amanhã eu posto os slides da aula sobre a 3ª geração do Romantismo e os trechos de texto. E no fim de semana fica a vez para o gabarito da ficha de revisão (quem não recebeu ainda vai receber, ok?)

Beijinhos e até o retorno!


A crítica social do século XVIII - Cartas chilenas e a Inconfidência Mineira

O contexto histórico de Portugal pós-União Ibérica não era dos mais promissores. Embora as idéias iluministas tenham finalmente chegado ao governo português, a estagnação econômica do país durante a regência espanhola deixou o Tesouro português em maus lençóis. O rei D. José I e seu primeiro-ministro, Marquês de Pombal, ambos no governo de 1750 a 1777 bem que tentaram a modernização do país, através de um governo déspota, mas o fato é que Portugal perdera, então, completamente, o brilho conquistado duzentos anos antes. Marcam o contexto português:

•D. José assume o reino e nomeia como primeiro-ministro o Marquês de Pombal (de 1750 a 1777).
•Despotismo esclarecido português.
•Destruição de Lisboa em terremoto (1755)
•Reformas de tendência iluminista. Expulsão dos jesuítas.
•Morte d D. José, queda de Pombal. Regência de Maria I, a rainha louca.


No Brasil, a situação também não é das melhores. As ruínas econômicas de Portugal se refletem diretamente na exploração que a corte aristocrática da Metrópole faz das riquezas da colônia. E tendo sido feita, na colônia, a descoberta de ouro, a exploração portuguesa, para manter o luxo e a pompa de sua elite, se fez sentir de forma cada vez mais sufocante. A insatisfação dos colonos foi se tornando cada vez mais inquietante e não tardou então para que os ideais democrátricos iluministas, que fundamentaram a Independência dos EUA (1776) e a Revolução Francesa (1789) se fizessem sentir aqui também. Infelizmente, nossa Conjuração Mineira (1789) foi sufocada antes de se efetivar qualquer manobra revolucionária.
Fizeram parte do contexto histórico brasileiro:

•Exploração do ouro na região de Minas Gerais.
•Urbanização do sudeste.
•Progresso econômico, advindo da necessidade administrativa.
•Esgotamento das Minas.
•“Arrocho” econômico: cobrança de pesados impostos para a ostentação da corte portuguesa. Derrama.
•Insatisfação social. Formação de grupos de discussão intelectual.
•Formação de um sistema literário brasileiro.
•Inconfidência Mineira (1789)

Neste contexto de insatisfação, a literatura se firma, como aconteceu no século anterior, como instrumento de manifestação da criticidade de seu povo. Agora, porém, há uma conquista que precisa ser assinalada: enquanto no Barroco temos a expressão de dois gênios individuais, em manifestações literárias esparsas, no Arcadismo constituem-se, finalmente, as três bases para a consolidação do nosso sistema literário: público consumidor, grupo de autores que compartilham ideais estéticos e circulação efetiva de textos literários escritos nas comunidades. No tocante à produção crítica quanto à nossa identidade, esses textos escritos são justamente os treze poemas que compuseram as Cartas chilenas, escritos por Tomás Antônio Gonzaga.
Sobre Gonzaga, não esqueça:

•Filho de um magistrado brasileiro, nasceu em Porto, Portugal. Retornou ao Brasil aos sete anos.
•Estudou com os jesuítas, na cidade da Bahia até os dezessete anos, quando volta a Portugal para estudar Direito em Coimbra.
•Ocupou importantes cargos jurídicos em Vila Rica.
•É o autor dos poemas líricos de Marília de Dirceu.
•Preso pelo envolvimento na Conjuração Mineira, ficou três anos detido numa prisão no Rio de Janeiro e depois foi condenado a dez anos de degredo em Moçambique.
•Casou-se com a filha de um rico traficante de escravos moçambicano e dada a influência do sogro voltou a ocupar postos importantes na burocracia portuguesa.
•Morreu no continente africano.

Sobre as Cartas chilenas, lembre-se de que:

• São a compilação incompleta de 13 poemas satíricos que circularam entre 1787 e 1788.
•O autor usa o pseudônimo Critilo e se dirige a Doroteu (identidade atribuída a Cláudio Manoel da Costa) criticando Fanfarrão Minésio (o governador Luís da Cunha Meneses).
•A maior importância deste texto é o painel social e político que ele descreve. Assim como a sátira de Gregório de Matos no século XVII, Gonzaga nos mostra a fragilidade da estrutura política colonial e os abusos praticados pelo governador da capitania de Minas.


Para não confundir as Cartas chilenas com a sátira de Gregório de Matos, fique atento aos seguintes aspectos:

•Os poemas que compõem as cartas chilenas são anônimos. Gregório declamava seus textos publicamente.
•Gregório faz uso de textos curtos, como o soneto. A estrutura das Cartas chilenas é de um poema longo, sem estrofação e com muitos versos brancos.
•O Boca do Inferno fazia uso de palavras de baixo calão em muitos de seus textos, além de ridicularizar quem criticava por seus defeitos. O texto de Gonzaga é sóbrio na linguagem e na crítica, embora também faça ataque pessoal.


Para terminar, os dois trechos que vimos em sala:

A lei do teu contrato não faculta
que possas aplicar aos teus negócios
os públicos dinheiros. Tu, com eles,
pagaste aos teus credores grandes somas!
Ordena a sábia Junta que dês logo
da tua comissão estreita conta;
o chefe não assina a portaria,
não quer que se descubra a ladroeira,
porque te favorece, ainda à custa
dos régios interesses, quando finge
que os zela muito mais que as próprias rendas.
Por que, meu Silverino?


***********************************************
Agora, Fanfarrão, agora falo
contigo, e só contigo. Por que causa
ordenas que se faça uma cobrança
tão rápida e tão forte contra aqueles
que ao Erário só devem tênues somas?
Não tens contratadores, que ao rei devem
de mil cruzados centos e mais centos?
Uma só quinta parte que estes dessem,
não matava do Erário o grande empenho?
O pobre, porque é pobre, pague tudo,
e o rico, porque é rico, vai pagando
sem soldados à porta, com sossego!
Não era menos torpe, e mais prudente,
que os devedores todos se igualassem?
Que, sem haver respeito ao pobre ou rico,
metessem no Erário um tanto certo,
à proporção das somas que devessem?
Indigno, indigno chefe! Tu não buscas
o público interesse. Tu só queres
mostrar ao sábio augusto um falso zelo,
poupando, ao mesmo tempo, os devedores,
os grossos devedores, que repartem
contigo os cabedais, que são do reino.

23.5.07

Identidade nacional - A crítica social no Barroco

O Barroco é o principal movimento artístico do século XVII. É considerado a arte da Contra-Reforma, pois sua visão de mundo está profundamente ligada à angústia existencial do homem cristão. Esse caráter se manifesta de maneira mais clara na poesia lírica de Gregório de Matos, que será estudada no segundo semestre. Por agora, como nosso recorte temático se concentra nas visões da literatura colonial e romântica a respeito da identidade nacional brasileira, vamos nos afastar desse caráter mais próprio do Barroco para estudar um elemento particular da produção literária de Gregório: a poesia satírica.

Os poemas satíricos remontam desde o início da literatura. A arte sempre serviu para, não só exaltar sentimentos pessoais, mas também denunciar a realidade à sua volta. E é exatamente isso que a sátira procura fazer. Às vezes ácida, às vezes bem-humorada, ela expressa a desaprovação que o artista tem de um indivíduo, um comportamento ou uma situação em geral. Está presente nas piadas, nas charges, nas esquetes humorísticas de televisão.

No caso da sátira de Gregório de Matos, há uma relação direta com as cantigas de escárnio e de maldizer medievais. O movimento Barroco, de uma maneira geral, resgata uma visão de mundo teocêntrica e medieval, e Gregório de Matos não se afasta dessa tendência, nem na produção lírica nem na satírica. Há, porém, uma liberdade formal muito maior em seus textos satíricos, visto que são considerados mais populares, menos sérios. O que não é, necessariamente, se afastar da tradição medieval: essas cantigas de escárnio e de maldizer não seguiam modelos rígidos, justamente por serem produzidas por artistas populares, de rua. Característica que Gregório de Matos manteve não só na forma mais livre de seus textos como na perfomance que fazia para que viessem a público - ele os declamava em praça pública, nas ruas de Salvador.

Não vou me alongar mais. Deixo para vocês os slides que foram vistos em sala de aula. Na dúvida, gritem!


Contexto histórico em Portugal:

•União Ibérica
•Sebastianismo
•Absolutismo
•Estagnação de Portugal
•Acirramento da Contra-Reforma

Contexto histórico no Brasil:

•Comércio extensivo da cana-de-açúcar
•Exploração da colônia
•Formação das primeiras cidades
•Invasões holandesas no nordeste

Pe. Antônio Vieira (1608-1697)


•Português, veio para o Brasil com 7 anos de idade.
•Padre jesuíta, ordem na qual ingressou aos 15 anos.
•Conselheiro de D. João IV e mediador político e representante econômico de Portugal
•Sua produção se compõe, principalmente de cartas e sermões, sendo de maior destaque estes últimos.
•Criticou a presença de holandeses em Pernambuco (por serem invasores e calvinistas), defendeu os índios e os judeus, o que o indispôs com muitos, principalmente com os pequenos comerciantes, os colonos que escravizavam índios e até com a Inquisição.
•Foi condenado à prisão por dois anos pelo Tribunal da Santa Inquisição.
•“Vieira era, então, o homem mais odiado de Portugal. E quanto mais era odiado pela Inquisição, mais a desafiava” (Ana Maria Miranda, no romance Boca do Inferno ).

Trecho do Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640)

Finjamos pois — o que até fingido e imaginado faz horror, finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará — como em outras ocasiões não perdoou — a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Nínive. (...)
Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão esta custódia em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo, e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem as imagens tremendas de Cristo crucificado, nem as da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho.
No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo *. Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois, se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? (...)


Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno (1633-1696)

•Baiano, estudou no Colégio dos Jesuítas em Salvador e depois cursou Direito em Coimbra .
•Seus poemas satíricos, cujo alvo principal eram o governador Antônio de Souza Menezes, o Braço de Prata, renderam-lhe um período de degredo em Angola, do qual só retornou sob a condição de não produzir mais sátiras e não regressar a Salvador.
•Sua sátira o aproxima dos poetas populares da Idade Média.
•Era irreverente como pessoa e como artista: chocava-se pessoalmente com a falsa moral baiana e usava em suas sátiras palavras de baixo calão; tinha comportamento indecoroso e em suas denúncias não se curvava ao poder de autoridades políticas ou religiosas.
•Na sátira não poupou palavrões e foi além do mero português de baixo calão: inaugurou o uso de uma língua diversificada, cheia de termos indígenas e africanos, gírias e expressões locais
•Temas principais estão a crítica ao governador, ao clero, aos comerciantes, à sociedade e à cidade.


Os poemas de Gregório de Matos não foram intitulados por ele. As glosas (referências de tema que passam a agir como título de um texto) que receberam foram dadas pelos estudiosos da obra do Boca do Inferno a partir do século XIX. Não deixarei as glosas dos textos, alguns dos poemas que vimos em sala. Para mais textos, vocês podem consultar o site Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia). Lá é só buscar no menu da letra G o nome do autor. Muita coisa que não pôde ser vista em sala, por n motivos está lá!


Senhor Antão de Souza Meneses,
Quem sobe o alto lugar, que não merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.

A fortunilha autora de entremezes
Transpõe em burro o Herói, que indigno cresce:
Desanda a roda, e logo o homem desce,
Que discreta a fortuna em seus revezes.

Homem (sei eu) que foi Vossenhoria,
Quando pisava da fortuna a Roda,
Burro foi ao subir tão alto clima.

Pois vá descendo do alto, onde jazia,
Verá quanto melhor se lhe acomoda
Ser homem embaixo, do que burro em cima.



A cada canto um grande conselheiro,
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um freqüentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.

20.5.07

Auto da Festa de São Lourenço

Quando eu prometo, eu cumpro. E aqui aos 45 do segundo tempo (ou melhor, do domingo, quinze minutinhos para daqui a pouco ser amanhã) eu deixo aqui as respostas da ficha sobre o auto de Anchieta que estudamos na última segunda-feira. Até daqui a algumas horas!

Compreendendo a estrutura do texto

Questão 1 - Logicamente nem tudo o que foi escrito por Anchieta na peça será dito pelos atores. Mesmo uma leitura feita sem tanta atenção reconhece isso. Os trecho que não pertencem às falas dos personagens são as rubricas da peça. São instruções sobre o que se deve fazer em que momento, como devem ser os figurinos, o cenário, a iluminação. Como o teatro de Anchieta é rústico e feito em condições precárias, nas rubricas do trecho que lemos estão apenas indicações sobre o assunto da peça e sobre as ações dos atores. Em peças mais sofisticadas, o autor indica o que imaginou para a sonoplastia, maquiagem, efeitos especiais, etc.
A diferença que há entre a rubrica e as falas e a forma como são grafadas no texto. A rubrica precisa ser destacada para que os integrantes da peça não tenham dificuldade, na leitura, de separá-las do texto que será interpretado. Freqüentemente a rubrica será escrita entre parênteses e em itálico, como aconteceu na ficha de vocês, mas pode vir destacada de outras maneiras: uma fonte diferente, um parágrafo destacado (se ela for muito longa).

Questão 2 - A obra simboliza o conflito entre a moral cristã e a moral indígena e representa, através do personagem do anjo e da ação dos santos, a ação da moral cristã sobre o indígena através da pregação dos padres. Para Anchieta o essencial é incutir no índio a idéia de que aquilo que ele, Anchieta, em sua moral cristã, é pecado trará ao índio conseqüências negativas, enquanto agir segundo o que acredita o homem branco trará conseqüências positivas.

Questão 3 - O teatro de Anchieta é muito simples e precisa ser simples dadas as condições de sua produção. Por isso mesmo os tipos humanos são clicherizados, facilmente reconhecíveis. Dividindo-se em protagonistas (mocinhos) e antagonistas (bandidos) os personagens vivem seus conflitos, com a vitória do bem sobre o mal no desfecho da peça. Do lado dos mocinhos (protagonistas) estão os anjos e os santos católicos, neste trecho da peça. Do lado dos bandidos (antagonistas), os demônios. No restante da peça há outros personagens e todos se dividirão nestes dois pólos.

Questão 4 - Como o intuito de Anchieta é catequisar o indígena, o desfecho da peça visa alcançar este intento. Daí a necessidade de demonstrar a força dos elementos cristãos sobre os pagãos. Ser vitorioso, na cultura indígena, é ser honrado, valoroso. Assim Anchieta criava no índio a expectativa de ser vencedor como os personagens eram, o que facilitava a inculcação dos valores católicos.

Questão 5 - O efeito pretendido por Anchieta era a conversão indígena. Portanto, o provável é que após a encenação os índios que dela participaram ou a ela assistiram pedissem para serem batizados e convertidos, ou, no mínimo, se mostrassem mais receptivos à doutrina católica.

13.5.07

Indianismo Romântico - Respostas da ficha 1

Olá pessoas!
Demora um pouquinho, mas eu venho aqui. Sabem como é: com vocês 870 alunos, algumas provas e trabalhinhos simpáticos (não é Yuri? :P) e uma pobre professora que passou a semana doente. (Alguém quer um restinho de gripe aí?)
Demoro, mas venho. Divirtam-se com a análise dos textos e a reposta da ficha 1. Esperem mais um pouquinho que eu posto um comentário desse grupo de escritores e as respostas da ficha 1.
O primeiro texto de Gonçalves Dias, Deprecação, que significa ato de implorar, nos mostra um eu lírico que é um índio e que se dirige ao deus indígena Tupã (questão 1). Esse índio implora para que Tupã descubra seus olhos do velame (véu) de penas que o impede de ver o que acontece com o povo indígena, dizimado por invasores que possuem armas de fogo (raios) e, por isso, o índio interpreta que são alguma forma de vingança de Tupã, já que ele é o deus dos raios (e trovões) contra seu povo (questão 3, 5, 7). Por isso ele implora que Tupã se apiede de seu povo e os ajude a se defender dos europeus, dando-lhes o poder de combater de combatê-los, ressuscitando o valor indígena (questão 10).
A mudança a que se refere o texto é a transição de um estado de paz inicial, em que os índios se encontrariam em harmonia com a natureza, para um estado de guerra e opressão que se inicia com a chegada dos europeus. Essa, pelo menos, é a visão romântica da vida indígena num momento em que este é o símbolo de pureza e civilidade da pátria. Note que é um desenvolvimento da teoria do bom selvagem, criada no século anterior por Rousseau e já adotada pelos árcades (questão 4).
O eu lírico relembra o passado para demonstrar que seu povo é destemido e enfrentaria de igual para igual os invasores, não fosse o fato de estes manejarem o raio cruento e os índios não terem esse instrumento disponível para si (questão 8).

Desfazendo o hipérbato, temos: E teus filhos jazem clamando vingança da perda infeliz dos bens que lhe deste e "O Piaga nos disse que seria breve a cruel punição que nos infliges" (questão 9)

O segundo texto de Gonçalves Dias, I-Juca Pirama, mostra-nos um índio que é um cavaleiro medieval típico: ele é bravo e forte (questão 11a), foge com o pai cego para protegê-lo (questão 11c) e para cuidar dele pede para viver (questão12a), o que seria uma desonra para um grande guerreiro, principalmente nas condições em que sua tribo se encontra: foi dizimada e sobraram poucos guerreiros timbiras (questão 11 b). Para isso ele pede "Não vil, não ignavo, / Mas forte, mas bravo, / Serei vosso escravo: / Aqui virei ter."
Listando as características típicas de cavaleiro medieval, podemos apontar que ele é um guerreiro valente que possui um código de honra que não permitiria descumprir a palavra dada, que o obriga a cuidar dos fracos. Esse cumprimento da palavra oferecida, e o fato de não mentir são elementos típicos do indivíduo naturalmente bom, que ainda não foi corrompido pela civilização (questão 13 a e b, respectivamente).
O texto de Manuel Bandeira trata-se de uma paródia, pois os valores foram invertidos: o eu lírico não é bravo, não é forte e preza tanto a vida que não se proporia a morrer. As conjunções/locuções conjuntivas que podem ser usadas no lugar de "Bem que" são "Ainda que", "Embora", "Apesar de".
Quanto à questão 16,o gabarito é letra D.
Bom restinho de domingo e até amanhã!

29.4.07

Exercícios de Caramuru, O uraguai e orientações para o trabalho

Ok, pessoas, minhas criaturinhas do pântano lindas que eu amo tanto!

Como eu prometi, divirtam-se com os exercícios (e suas respostas) e com a orientação do trabalho (um oferecimento especial de Ana Beatriz e Débora para vocês! O que vocês me pedem sorrindo que eu não faço com um sorriso maior ainda além de divulgar as respostas ANTES de uma prova? ;-) Nadica mesmo!).

Beijinhos e aproveitem o feriado. Porque euzinha mesmo vou corrigir prova! Eita vida de professor!!


Exercícios

Questão 1: O tema da morte por amor, evocado no episódio do assassinato de Inês de Castro. A diferença é que Inês foi assassinada, sua morte foi provocada por outras pessoas; Moema e Lindóia, por sua vez, deixam-se morrer porque seu amor se tornou impossível: Lindóia procura a morte na floresta e se deixa picar por uma cobra por não conseguir continuar vivendo sem Cacambo; Moema se deixa afogar pelas ondas do mar porque não consegue viver sem a presença de Diogo, que está partindo. Notem que o único amor não correspondido é o de Moema.

Quanto ao evento mais dramático, há aí uma questão bastante pessoal. Eu, particularmente, considero que dos três, sem dúvida, a morte de Inês é mais chocante, até porque a morte não foi procurada por ela. Já entre a morte de Lindóia e a de Moema, eu fico com a primeira. O ponto de vista do narrador, a partir das impressões de Caitutu sobre o morte da irmã tem uma emocionalidade bastante aflorada. Já a morte de Moema é reduzida ao lamento de uma mulher que se considera traída. Trata-se de um escândalo de uma barraqueira, quase, e ainda por cima sem o menor fundamento, pois Diogo nunca deu bola para índia nenhuma a não ser Paraguaçu. Moema só aparece mesmo para morrer. Santa Rita Durão bem que tentou criar um episódio de morte por amor, mas acabou criando uma louca ciumenta obsessiva, como umas personagens de filme de suspense americano classe B. A única diferença é que ela não tentou, como as personagens desses filmes, matar alguém, só a si mesma.


Questão 2: Não há diferença entre a linguagem do narrador e a linguagem dos personagens indígenas em Caramuru. Santa Rita Durão preferiu investir no artificialismo da linguagem para tentar manter a sobriedade e eloqüência da epopéia. Não culpem o coitado! Até José de Alencar vai fazer isso com Peri! A adaptação da linguagem literária à linguagem do povo , salvo algumas exceções, só vai acontecer mesmo no modernismo. Oswald de Andrade que o diga! (Eita, olha a dica!!)

Questão 3: A relação entre personagem e natureza é mais harmônica na morte de Lindóia do que na morte de Moema. Vejam que o mar engole Moema, ela é morta por ele, mas queria, na verdade, ir embora com Diogo. Lindóia não. Ela quer morrer e busca ajuda da floresta para isso. Lindóia está triste e a natureza ao seu redor também é lúgubre (depressiva, sombria, triste): o bosque "escuro e negro" é um "lugar delicioso e triste" e ela escolhe esse lugar para morrer. Lindóia permite que a cobra a envenene, ela deixa a natureza agir sobre ela, segundo o seu desejo. O mar, para Moema, porém, é um obstáculo que a separa de Diogo, e que procura impedir o amor da índia. Veja que Moema tem "ardor" no peito e é tanto ardor que "nem tanta água que flutua vaga / ... / banhando apaga". O obstáculo deveria apagar o amor de Moema, mas não consegue e nem ela deseja que isso aconteça.
Uma observação: notaram que eu deixei um trecho na citação assim: "/.../"? Para colocar o trecho na ordem direta, eu tive que pular uma estrutura. Estando na ordem indireta (e mais difícil de se entender por causa disso), há aí (e em muitas outras partes dos dois poemas) um hipérbato, ou inversão! Lembrem-se que isso é típico da epopéia de Camões e vai continuar nas epopéias brasileiras do século XIX.

Questão 4: O fato de Diogo ser tão religioso e de a mulher que escolhe para ser esposa ser uma índia acima das outras índias porque tem características de branca ressalta a superioridade dos portugueses sobre os índios. O indígena que se submete ao branco e à catequese é que é valorizado e é quem pode ascender ao poder social e político na região, pois assim ele deixa der "índio" e passa a ser um "homem civilizado" (ou mulher). E é essa associação entre civilidade e a compleição física e a cultura branca que fazem com que Diogo escolha Paraguaçu. Ela é menos selvagem, mais civilizada, mais apresentável como esposa para a coroa portuguesa.

Questão 5: O poema Caramuru conta como um único português, Diogo Álvares, através da sua inteligência e religiosidade, domina todas as nações indígenas do litoral da região de Salvador e de Itaparica. Trata-se de um poema que elogia o sucesso português em domar o território e a gente selvagem do Brasil, salvando-a da perdição que os hábitos pagãos representavam. Elegia-se, na obra, portanto, os feitos portugueses, tal qual Camões elogia a conquista do Atlântico por Portugal. A diferença principal é que Camões também critica, enquanto Santa Rita Durão é puramente ufanista (não lembra o que é ufanista? Pegue o dicionário, ué!)
Já em O Uraguai há um caráter crítico bem mais acentuado. Lembrem-se que Basílio da Gama não era realmente contrário aos jesuítas (do contrário ele não teria sido preso por se corresponder com um!). A obra foi um artifício para ele "limpar a barra" com o Marquês de Pombal. E é por isso que a obra é elogiosa, pero no mucho. O fato é que, em relação aos jesuítas, Gama se obriga a fazer rasgados elogios à ação portuguesa, mas quanto ao efeito disso na população indígena há um tom muito amargo no poema. Os índios, lembrem-se, foram chacinados na região das Missões, e a simpatia com que Gama os apresenta na epopéia não poderia deixar de lamentar a guerra. Enquanto em Caramuru o elogio à ação portuguesa se faz sem ressalvas, em O Uraguai o elogio é mais crítico, pois o herói, Gomes Freire de Andrade, demonstra que há certa injustiça na luta contra os índios, embora tenha que cumprir seu dever, este sim legítimo, de acabar com o domínio dos malvados jesuítas.


Trabalho

Dicazinhas sobre o trabalho:

1 - Enxuguem a pesquisa sobre Oswald. Concentrem-se nele. Sobre o movimento a que ele pertenceu (o Modernismo) e as correntes do modernismo em que ele se insere (Movimento do Pau-Brasil e Antropofagia) não são necessárias páginas e páginas de pesquisa. As informações essenciais que expliquem as ideologias desses três elementos são suficientes.

2 - Sobre o poema de Oswald de Andrade, pensem na simbologia do ato de "vestir" e de "despir". Lembrem-se que a forma como nos vestimos é um reflexo do grupo social a que pertencemos. As vestimentas de uma população refletem seus hábitos, suas visões do belo e do feio, seus gostos, enfim, sua cultura. Atentem também para as condições de chegada dos portugueses: em uma, "debaixo de bruta chuva", há um evento; na outra "uma manhã de sol" acontece outra coisa. As condições externas, alheias à nossa vontade, influenciam o que acontece conosco. Vocês podem se preparar para ir a uma festa com a roupa mais linda. Mas se no dia faz muito calor e a programação era uma roupa pesada, escura, é preciso mudar de planos, para que haja uma adaptação a essa condição externa. Se for o contrário: roupa leve, bem fresquinha, e o tempo está frio, é preciso mudar o roteiro para uma nova adaptação a essa condição externa.
Visto isso, agora pensem um pouco: o que é o ato de "vestir" e de "despir" nessa situação de encontro de civilizações? Que condição externa representa a chuva e o sol?

3 - Uma metáfora é uma comparação implícita. Se eu digo que "Sigismunda fala como uma matraca" eu comparo Sigismunda a uma matraca. Mas se eu digo que "Sigismunda é uma matraca", eu uso uma metáfora. Sigismunda, coitada, não é uma matraca de verdade. Ela se parece com uma porque as duas têm um elemento em comum: fazem muito barulho. Para maiores informações, pesquisem nos livros de vocês e na internet sobre metáforas, ok?

Beijinhos e fiquem com Deus! Sejam felizes!

22.4.07

As questões da prova

A primeira questão direcionava a leitura do texto para o fato de o autor responsabilizar os índios e não os franceses pelas mortes e danos à região. O enunciado pedia que, para se construir a resposta, fosse considerada a tecnologia dos dois povos.
É de conhecimento universal que as armas mais poderosas, no século XVI, pertenciam aos brancos, sendo, portanto, mais provável que o dano fosse feito pelos franceses, não pelos índios. Assoma-se a isso o fato de a França ter interesses econômicos grandes na exploração do pau-brasil, interesse de lucro que o indígena não possuía. Portanto, o lucro com os ataques aos portugueses é dos franceses e não dos indígenas, alvo fácil dos embates contra as armas européias.
A partir desta reflexão, a resposta que corretamente pode-se inferir do texto para essa pergunta é de que a responsabilização indígena é incorreta, visto que os franceses é que tinham interesse econômico no ataque e poderio militar para provocar tantos estragos.
A partir daí, segue-se a segunda reflexão: que interesse o relator, o informante português tem para atribuir essa responsabilidade a indígenas e não a franceses? Duas possibilidades são as mais evidentes: os indígenas, naquele tempo, como vimos nos demais textos da literatura de informação, eram considerados selvagens, inferiores e perigosos. Portanto, há uma natural tendência de, entre um branco civilizado e um indígena selvagem, atribuir a ação aos gentios. Além disso, uma atribuição dos ataques aos franceses poderia provocar conflitos muito mais preocupantes, dada a força econômica e bélica da França.

A segunda questão, de um vestibular da UFPB, apresentava três afirmações sobre o texto e solicitava que se assinalasse a alternativa que apresentava a correta (ou as corretas).
A primeira proposição afirma que o texto faz parte da literatura de informação e justifica essa classificação a partir do objetivo: informar a Portugal sobre a colônia. Essa proposição é verdadeira, tanto no conceito que apresenta de literatura de informação como na classificação do texto de Gabriel Soares, que visa relatar os estragos supostamente provocados por índios nas capitanias de Pernambuco e de Itamaracá.
A segunda proposição afirma que o texto reflete um modelo literário luso-brasileira. Está incorreta, pois, para seguir um modelo literário luso-brasileiro, supõe-se que há produção literária efetivamente, ou seja, produção artística. Além disso, usou-se o adjetivo luso-brasileiro, que assinala uma identidade brasileira que já se firma, embora ainda em associação com a portuguesa. Isso aconteceu nos séculos e movimentos seguintes, mas não no Quinhentismo.
A terceira proposição assinala a importância do Quinhentismo na tradição literária brasileira. Isso foi visto e constantemente repetido em sala: embora não seja literatura, o Quinhentimos inicia a descoberta da identidade brasileira, sendo, portanto, fundador de tradição, que será rejeitada ou copiada pelos movimentos seguintes.
Feitas estas considerações, pode-se perceber que a alternativa correta é aquela que indicar como verdadeiras as proposições I e III. De acordo com o tipo de prova, logicamente, o gabarito se altera.

A terceira questão faz afirmações sobre a carta de Caminha. Era uma questão bastante fácil e nela fica uma dica de vestibular: três alternativas eliminavam a si mesmas e, portanto, a resposta ficava já restrita a uma delas. Observe:

Não há preocupação com a conquista material.
A única preocupação era a catequese dos índios.
Apresenta tato preocupação material quanto espiritual.


Se não há preocupação material na conquista da terra, evidentemente a única preocupação é espiritual. Assim, considerando-se a primeira alternativa verdadeira, a segunda obrigatoriamente se torna verdadeira também, o que é um vício. Já se considerarmos que há os dois tipos de preocupação, as duas proposições se tornam inválidas. Detalhe: uma questão muito parecida foi vista na revisão da informática e comentamos exatamente este ponto.

Ok, você se pergunta, e as outras duas afirmações, porque estão erradas? Vejamos:

Não cita, em momento algum, os nativos brasileiros.
É representativa do pensamento contra-reformista


Dizer que a Carta de Caminha não cita nossos índios é ter faltado praticamente todas as aulas de fevereiro e nem ter parado para ler as fichas. Absurda esta afirmação. Já afirmar que ela é representativa do pensamento contra-reformista significa dizer que ela ideologicamente tem como principal objetivo combater as heresias reformistas, afastar o homem do pecado e mantê-lo contrito com o catolicismo. A carta possui uma preocupação com a catequese que é reformista, mas seu objetivo principal não é esse. A literatura que vai realmente representar o pensamento contra-reformista será a literatura de catequese do século XVI e a literatura barroca do século XVII.

A questão 4 foi extremamente batida na revisão. Em Portugal há Quinhentismo porque esta é a denominação genérica para a produção cultural do século XVI. E há Classicismo porque este é o movimento artístico fruto do Renascimento. Já no Brasil não há Classicismo, porque não há produção de literatura. Os nossos escritos não são obras de arte, seu propósito é informativo ou catequético. Há Quinhentismo, porém, pois há produção de cultura.

As questões 5 e 6 tratavam da fala do Velho do Restelo de Os lusíadas. Esse foi o trecho do poema em que mais batemos da tecla. Vimos em sala e na revisão da informática que é uma das partes em que Camões faz a crítica às grandes navegações, e que a outra era o epílogo.

Sabendo disso, já pelos verbos poderíamos eliminar alternativas. Veja:

Abençoa
Critica
Emociona-se
Destrata
Adverte


Abençoar e emocionar-se estão fora de cogitação. Lendo as outras afirmações temos que:
Critica as navegações portuguesas por considerar que elas se baseiam na cobiça e busca de fama.
Destrata os marinheiros por não o terem convidado a participar de tão importante empresa.
Adverte os marinheiros portugueses dos perigos que eles podem encontrar para buscar fama em outras terras.

Das três a segunda se torna impossível sem nem ser necessária a leitura do trecho apresentado. Se o velho do Restelo é contra a navegação para as Índias, não há sentido em ele desejar ser levado para ela. E se alguém ficou em dúvida entre a primeira e a última, era só ler o texto. O velho menciona, vagamente, que há perigos na viagem, mas ele não intenta dissuadir os marinheiros, advertindo-os. Seu lamento se faz pelo fato de as navegações, no seu ponto de vista, visarem a fama, a glória e a riqueza, a despeito do sofrimento que isso possa causar. Essa parte do texto, por sinal, foi vista em ficha e resolvida em sala.
Portanto, a resposta é a alternativa em que se afirma que o velho critica as navegações portuguesas.

A questão seguinte era pura interpretação. E nem de texto, mas de frase. Pedia-se, apenas, que fosse indicada a relação lógica entre as idéias dos versos Chamam-te ilustre, chamam-te subida, / Sendo digna de infames vitupérios.
O primeiro verso mostra que Portugal era uma nação conhecida como grande nação, ilustre, subida, isto é, no alto. Já o segundo diz que o país é digno de infames maldições, xingamentos. Sendo as duas idéias contrárias, claro que a alternativa só pode ser a que afirma que a relação é de oposição.

A questão 7 era sobre o Renascimento, movimento cultural do qual deriva o movimento artístico classicista. Eu orientei para que revissem os trabalhos para a prova, não foi? Pois é, estavam avisados.
Em estrutura semelhante à questão 2, aqui se apresentavam informações sobre o Renascimento e se pedia que fosse assinalada a alternativa que contivesse as afirmações corretas. Analisemos cada uma então.

A primeira afirmação atesta que o Renascimento se caracterizou pela valorização da razão, do experimento e pelo humanismo. Afirmativa perfeitamente correta e fácil de relacionar a um movimento que enfatiza a razão e a ciência, em oposição à religiosidade medieval. O termo humanismo conecta-se imediatamente ao conceito de antropocentrismo, tão prezado pelos renascentistas.
A segunda afirmação atesta que o movimento expressou o universo mental da nova sociedade, a sociedade burguesa. Ora, o século XVI foi justamente marcado pela transição da sociedade feudal para a sociedade burguesa, que vai se firmar como classe dominante um pouco depois. É no século XVI que o comércio mercantilista se estabelece, em que a economia se centraliza. O que é a exploração das colônias americanas senão uma exploração burguesa (na maior parte da América, pelo menos) de uma terra inexplorada, onde havia a oportunidade do homem livre europeu se tornar senhor de si mesmo?
A terceira proposição afirma que caracterizam o Renascimento o individualismo, o naturalismo e o heliocentrismo. Foi nesta época que a teoria heliocêntrica surgiu pela primeira vez, o que torna a alternativa verdadeira. Também o movimento prega que o homem é senhor do próprio destino, o que o torna individualista. O naturalismo é a busca pela experiência natural, científica, que também tipificaram o século XVI.
A última proposição afirma que é característico do período renascentista produzir obras que glorificavam o Estado, o príncipe e enobreciam sua origem. Quem fez o trabalho com atenção, viu que surge aí o primeiro conceito de absolutismo, doutrina que se opõe diretamente ao modelo de governo medieval. Correta a firmação, portanto.
Analisadas as proposições, verifica-se que a alternativa correta é aquela que apresenta todas as afirmações como corretas.

A penúltima questão da prova, com o texto Mulheres de Atenas, era, também, a mais simples delas. A questão pedia que se relacionasse o texto com o movimento classicista. A relação mais óbvia e mais profunda é o fato de o texto e o movimento assumirem a cultura grega como um modelo a ser seguido. Mirar-se no exemplo das mulheres de Atenas é mirar-se no exemplo dos gregos que a cidade representa. Em princípio é esta a relação estabelecida.
Alguns alunos me surpreenderam relacionando o luto das mulheres de Atenas ao luto das mulheres e das famílias que o Velho do Restelo menciona em seu lamento. Foi uma leitura interessante essa, e mereceu ser bonificada com parte da pontuação. Pena que vocês complicaram a coisa mais do que ela realmente era e não buscaram no texto aquilo que ele tinha de mais concreto.

A última questão foi IDÊNTICA a uma questão de ficha. Apenas o poema de Fernando Pessoa foi trocado. Ela pediu que se classificasse a relação do texto de Fernando Pessoa com o texto da fala do Velho do Restelo e do epílogo de Os lusíadas em paráfrase e paródia e justificasse essa classificação. Ora, vimos em aula e em revisão que nesses dois trechos há a crítica de Camões às grandes navegações. Quem não tinha certeza disso bastava reler o trecho disposto para as questões 5 e 6. O texto de Fernando Pessoa também apresenta um tom melancólico, desesperançoso, pois o país encontra-se em ruínas. O futuro de Portugal, incerto, pobre, sem brilho, como Camões profetizou em Os lusíadas. Há portanto, uma paráfrase na relação dos trechos com o poema, visto que compartilham de uma visão amarga sobre as conseqüências das grandes navegações.

31.3.07

Fichas de exercícios e revisão

Desculpem a ausência... 250 provas de redação me deixaram maluca nas últimas semanas. Além disso, algumas turmas se adiantaram, outras atrasaram e eu não podia atualizar isso aqui até conseguir organizar vocês.
Alguém mandou um comentário para mim pedindo uma revisão sobre Quinhentismo. Vou fazer melhor: vou fazer uma revisão de tudo e deixar junto com isso as respostas das duas fichas de exercícios, a sobre o Quinhentismo (cujos dois primeiros textos são um excerto da Carta de Caminha e a apropriação de Oswald de Andrade desse mesmo trecho no poema "As meninas da gare") e sobre Classicismo (com a ficha de exercícios sobre "Os lusíadas").

Quinhentismo e Classicismo
Como eu disse em sala, a denominação quinhentismo se conecta ao período histórico. Quinhentismo é a produção intelectual e cultural do século XVI, artística ou não. É por isso que, no Brasil, pode-se dizer que há Quinhentismo, pois há uma produção intelectual escrita nesse período. O que não há é o Classicismo, a produção artística fruto do Renascimento.

O Quinhentismo
Marcam os textos do quinhentismo, como vimos na ficha Confrontando textos - Ficha de Exercícios 1, o olhar sobre o índio e sobre a natureza. Esse olhar sobre o índio oscila entre a percepção de sua inocência, como acontece no Texto I da ficha, excerto da Carta de Caminha, e a malícia do colonizador (como Oswald, no século XX, manifesta em As meninas da gare).
Os exercícios dessa ficha, por sinal, baseiam-se nas relações de paródia e de paráfrase entre textos produzidos em épocas diferentes sobre esses mesmos dois assuntos primordiais da nossa literatura de informação do século XVI: o homem e a terra. Oswald, em seu poema, resgata e redimensiona a primeira impressão do homem português sobre o índio brasileiro, transformando as índias de Caminha nas prostitutas da estação de trem (gare é uma palavra francesa que significa estaçaõ de trem). A simples atribuição do título faz essa transformação total no texto, que ressalta os malefícios que a civilização européia traz ao Brasil (a prostituição e a miséria que ela representa). O avanço tecnológico existe (os trens), mas ele é pano de fundo, apenas, para a decadência do Brasil, que continua sendo usado pelo viajante, agora quase um turista sexual mesmo, turista de que o Brasil necessita para continuar sobrevivendo, assim como necessita da cultura européia (observe a necessidade do uso de uma palavra de língua estrangeira no lugar da língua portuguesa - ela denota uma influência fortíssima da cultura européia na nossa).
A natureza, no quinhentismo brasileiro, freqüentemente (para não dizer quase sempre) será exaltada em sua exuberância e na sustentabilidade que o homem tem ao se relacionar com ela. É o nosso pau-brasil que sustenta a colônia no século XVI e é o nosso solo cuja fertilidade o próprio Caminha já apontava na famosa Carta que sustentará o Brasil nos séculos seguintes: através do açúcar, do ouro (que também brota da terra), do café... Resgatando esta tradição temos os dois poemas do restante da ficha: À Ilha da Maré, de Botelho de Oliveira, escrito no século XVII, e Ladainha, de Cassiano Ricardo, escrito no século XX. Em ambos o nativismo (sentimento de apego à terra natal) é expresso através da exaltação da nossa fauna e da nossa flora, dos nossos animais e das nossas plantas. A diferença consiste na forma como cada autor fez esta exaltação: Cassiano Ricardo o faz através da repetição constante do refrão ( repetição que foram a ladinha do título), que se intercala com digressões mais profundas sobre os elementos que formam a nossa natureza e que vão mostram como o conhecimento sobre o Brasil foi sendo formado no século XVI. Botelho de Oliveira, por sua vez, faz uso de versos livres (sem métrica) com rimas emparelhadas e, no final do trecho que está na ficha, usa a disseminação e recolha com assimetria. A disseminação é o ato de espalhar os conceitos dos quatro AA na penúltima estrofe, que, segundo ele, são perfeitos. A recolha é a reordenação desses quatros AA na última estrofe. Esse processo foi feito com assimetria pela diferença na ordenação desse "espalhamento" e da recolha: o poeta espalhou numa ordem as palavras e recolheu em outra, provavelmente para manter o seu esquema de rima e possivelmente para ordenar os elementos pelo seu valor econômico.
Essas apropriações artísticas dos temas do Quinhentismo, como é fácil de perceber, resgatam muito da visão sobre o Brasil daquele período. A diferença fundamental, porém, é o fato de o fazerem através da criação de uma obra de arte, enquanto que o Quinhentismo brasileiro não constitui um movimento artístico. O primeiro movimento ocorrido aqui no Brasil vai ser o Barroco, no século XVII. Quanto ao primeiro movimento artístico de caráter brasileiro, puramente nacional, aí é outra complicação que nem os críticos mais gabaritados conseguiram resolver consensualmente ainda. São cenas dos próximos capítulos... Por enquanto, relaxem!

O Classicismo
O Classicismo é um movimento que nas artes manifesta a nova visão de mundo obtida com a revolução cultural que fez renascer a cultura greco-romana na Europa. Ou seja: é o Renascimento nas Artes.
Sendo parte deste movimento maior que é o Renascimento, o Classicismo compartilha com ele de seus conceitos: o antropocentrismo, a valorização da razão e da contenção emocional. Além disso, vai copiar os preceitos estéticos da arte greco-romana, os quais são transformados em modelos que precisam ser cumpridos para se atingir o belo. Na literatura isso aconteceu com a adoção das estruturas dos gêneros literários como se manifestavam na Grécia e em Roma, tanto na sua constituição lógica como na estética. No nosso estudo imediato nos interessa observar isso no resgate que Camões faz, na literatura portuguesa, do gênero épico.
A epopéia (poesia épica), como foi inclusive abordado na ficha "Os lusíadas - Analisando o texto", estrutura-se logicamente em proposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo, sempre nessa ordem.
Na proposição, o artista informa qual será o tema de que ele tratará no texto: em Os lusíadas isso acontece nas duas primeiras estrofes, em que Camões informa que tratará da viagem de Vasco da Gama (toda a primeira estrofe diz isso), da história de Portugal (as memórias gloriosas / Daqueles Reis que foram dilatando / A Fé, o Império, e as terras viciosas / De África e de Ásia andaram devastando) e dos grandes mitos portugueses - que é o caso de Inês de Castro, por exemplo (aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da Morte libertando). Na invocação, o artista pede auxílio às Musas, pedindo que elas as inspirem a fazer um bom poema. Na Antigüidade Clássica, recorria-se a Calíope, a musa da poesia épica. Camões inova pedindo auxílio às Tágides, ninfas do rio Tejo, numa clara exaltação nacionalista (afinal ele prefere uma entidade mitológica que seja conectada à nação portuguesa, e não simplesmente uma entidade estrangeira). A invocação ocupa da terceira à quinta estrofe.
Na dedicatória, o artista oferece o poema a alguma figura importante, geralmente de importância política e financeira para ele (lembre-se do papel do mecenas na Idade Moderna). No caso de Os lusíadas, Camões elege como receptor da dedicatória o rei D. Sebastião. Essa estratégia deu certo: o rei decretou que deveria ser paga uma pensão a Camões enquanto ele vivesse. O problema é que aquilo que se decreta não é necessariamente o que se faz: o autor morreu na miséria. A dedicatória ocupa uma longa parte do primeiro Canto de Os lusíadas: na ficha, isso representa todas as outras estrofes do texto.

A narração contitui o contar a história, especificamente. Nela, Camões faz algumas inovações:
1 - Ao mesmo tempo em que exalta a própria nação, elemento constitutivo típico do gênero épico, ele toma liberdades poéticas que a criação literária permite para criticar o empenho conquistador de Portugal, através da fala do Velho do Restelo;
2 - Introduz os episódios líricos na epopéia: é o caso da morte de Inês de Castro e do lamento do Gigante Adamastor.

Sobre essas duas inovações, por sinal, tivemos três questões da ficha, as quais nos ajudaram a compreender melhor estes elementos. A primeira delas foi sobre Inês, descendente de uma família nobre na época da formação do Estado único português. Inês foi apaixonada pelo príncipe Pedro, filho de Afonso IV, e eles viveram um romance adúltero desaprovado pelo rei, que temia a influência dos Castro sobre o futuro regente português. Quando o príncipe Pedro, já viúvo, perde também o filho que teve com a princesa Constança, morta no parto, o rei Afonso teme que os Castro aproveitem a oportunidade para reclamar o trono através de um dos filhos de Inês e de Pedro. Por isso, manda matar Inês, que foi degolada por capangas num local conhecido hoje como Quinta das Lágrimas. Conta a lenda que a água que brota da fonte desta quinta é vermelha, como o sangue derramado de Inês.
Na narração da história portuguesa, Camões revive este episódio trágico da morte de Inês de Castro num dos pontos altos da obra. A ficha reproduziu um pequeno trecho em que um eu-lírico, que reflete sentimentalmente o mundo, fala sobre a morte de Inês. Para isso ele conversa com o sentimento amoroso e com Eros (Amor). Essa imagem pagã valoriza a cena da morte de Inês, que é comparada a um sacrifício a um deus tirano.

A fala do Velho do Restelo, assim como o Epílogo (conclusão da obra) são os momentos em que Camões toma liberdade para criticar Portugal. Hoje alguém me perguntou se chegam a constituir momentos líricos. Não exatamente. A fala do Velho do Restelo reproduz em discurso direto (sem a intervenção do narrador) a impressão negativa que o personagem tem sobre a conquista portuguesa, a qual, segundo ele, é movida pela cobiça, pela glória, pela fama. Não há um eu-lírico de quem escreve a obra Os lusíadas se manifestando nela (daí Camões conseguir se disfarçar com o personagem). Também não é o que ocorre no epílogo, já que o que caracteriza esta parte é justamente uma reflexão sobre o que foi narrado e isso constitui naturalmente a obra maior que é a epopéia. É diferente de, na narração, o autor deixar de lado o relato de guerras para contar a história de um amor e nessa história derramar-se emocionalmente no texto. Ou do texto de Fernando Pessoa, em que o poema tem o únco propósito de mostrar a reflexão de seu autor sobre a conquista portuguesa, sem se preocupar, nisso, em fazer uma narração.

O episódio do Gigante Adamastor é outro ponto de lirismo na obra. Infelizmente esse lirismo não pode ser percebido no trecho da questão 5 da ficha, pois ela tem como propósito principal trabalhar os conceitos de paráfrase e paródia. Nela se compara a personificação do cabo das Tormentas que fazem Fernando Pessoa e Camões. O momento lírico é posterior à apresentação do personagem, quando ele relata e lamenta seu amor impossível por Tétis, ninfa dos oceanos. Aí existe uma pausa na narração da história de Vasco da Gama, de novo, para que um novo narrador, este sim que se posiciona sobre o assunto, possa contar sua história e se posicionar sobre ela. Quando o Gigante Adamastor se transforma em narrador (enquanto o Velho do Restelo é apenas personagem) ele dá um caráter lírico, pessoal ao que narra. Ah... e sim, existe paráfrase, hamornia, nas duas caracterizações.

Bem, é isso. Boa prova segunda-feira e bom fim-de-semana!
Sejam felizes!

11.3.07

Camões, Os lusíadas e o Classicismo

Olá pessoas,

Desculpem a ausência na última semana, mas a correção de trabalhos (de vocês e dos meus outros 500 alunos) me mantiveram ocupada demais para postar aqui. Mas vamos lá...

Terminamos o estudo da literatura de informação com aqueles exercícios com o texto de Oswald de Andrade e com os textos de Botelho de Oliveira e Cassiano Ricardo... Menos a turma A, que não pôde, aindam, trabalhar com este material (mas que o fará em breve). Por essa discrepância eu vou pedir a vocês um pouquinho de paciência para eu postar as repostas aqui, mas não se preocupem, elas aguardarão vocês.

Em seguida, começamos o estudo desse mesmo período da literatura, mas em Portugal. Vimos, então, duas fichas teóricas sobre Camões e as turmas A, B e E já começaram a exercitar sobre o texto de Camões. Quem não começou ainda, é só aguardar a próxima aula. Quando terminarmos este material, eu deixo as resposta aqui, como sempre.

O que falar de Camões então? Muito vocês já descobriram nos trabalhos sobre o século XVI e muito nas nossas fichas teóricas. Estudamos em sala que, sendo representativo do Classicismo português, Camões se pauta em dois grandes autores da tradição clássica greco-romana para fazer seu poema: Homero e Virgílio. Estes dois autores e seus poemas épicos (epopéias) fundaram a tradição clássica que, no século XV foi resgatada inicialmente por Dante Alighieri, autor italiano, em A Divina Comédia, e, depois pelo próprio Camões, na literatura portuguesa.

Mas o que significa "resgatar a tradição da epopéia clássica"?

Na Grécia Antiga, os filósofos Platão e Aristóteles produziram as primeiras teses que embasam a teoria da literatura. Observando a produção de literatura de seu tempo, eles perceberam que poderia agrupar os textos em três categorias distintas, às quais chamaram gêneros literários. São eles: lírico, dramático e épico.

A distinção principal entre o primeiro dos dois últimos é o conteúdo. No gênero lírico, importa a apresentação de uma perspectiva, um sentimento, uma reflexão de um "eu" sobre o mundo. Daí vem a expressão "eu lírico". Já no gênero dramático e no gênero épico, importa a narração de eventos que mobilizam personagens. Estes dois gêneros, de conteúdo bastate semelhante, diferenciam-se na forma: o gênero dramático é feito para ser representado (e isso, na Grécia Antiga, significava ser a peça de teatro), enquanto o gênero épico contém um narrador que faz o relato da história.

Isso não significa, porém, que os textos de romances e contos que costumamos ler são parte do gênero épico. São, sem dúvida, textos de um gênero narrativo sim, mas não são, necessariamente, épicos. Um texto, para ser épico, precisa de um elemento essencial que outras produções narrativas não precisam ter: um herói modelo de civilização, cuja perfeição deve exortar o homem a ser melhor do que é.

Não entendeu? Então vamos fazer uma comparação só para ilustrar... Se pensarmos em séries de TV como OC e Smallville, veremos que em OC, os personagens, mesmo aqueles a quem admiramos, são pessoas comuns. Elas podem ser engraçadas, tristes, alegres, têm defeitos e qualidades e delas gostamos, mas elas não são nada além de humanas, com tudo o que um ser humano tem, principalmente os defeitos. Esse tipo de personagem é amado porque seu público se identifica com ele, percebe nele elementos que as pessoas no cotidiano também têm.

Já em Smallville, temos um herói bastante clássico. Clark Kent é bom filho, bom amigo e ainda encontra tempo para salvar o mundo. É um personagem altruísta, que prefere sofrer com a ausência de quem gosta a deixar a pessoa em perigo. Apesar de sofrer, ele sempre vai fazer aquilo que é certo, nem que para isso o seu tão importante segredo seja revelado. Ele tem poderes suficientes para dominar o mundo, mas é bom demais para deixar a ambição o dominar.

Esse exemplo de herói exemplar é que corresponde ao herói clássico (herói da literatura clássica grega e romana). Esse herói, para Platão, é que fazia com que as tragédias gregas e a epopéia fossem o gênero literário de maior valor, pois elas estimulariam os homens a serem melhores do que são, exaltando qualidades que todas as pessoas deveriam desejar desenvolver. Com o tempo, além desse componente de "estímulo ao indivíduo melhor", também se associou o componente de "tornar a nação melhor". Foi o que aconteceu na obra de Virgílio e na de Camões.

"Como assim?", você deve estar se perguntando. Vamos voltar um pouquinho ao que eu falei sobre as obras clássicas e adentrar na obra classicista portuguesa.

Nos poemas Ilíada e Odisséia, Homero se concentra em dois grandes heróis: Aquiles e Ulisses, que servirão de exemplo para o homem grego. Aquiles é o grande herói da guerra de Tróia (embora Ulisses seja o personagem que consegue determinar a vitória dos gregos). Ele é um semideus - e chegou a ser cultuado como Deus por algumas populações do mar morto - e, por isso, tem uma beleza olímpica (ou seja, divina, perfeita), um corpo perfeito, mais ágil, mais forte, mais resistente do que o de qualquer homem comum. E, como foi banhado pela mãe no rio Estige, é também imortal (exceto pelo famoso calcanhar, única parte que não foi banhada pela imortalidade). Em Aquiles, Homero exalta a grandiosidade do herói guerreiro, colérico e impiedoso, mas também demonstra que apenas a força não leva a vencer uma guerra. E nisso entra Ulisses.

Ulisses, ou Odisseu, era um homem comum, mas nem tanto: por ser rei e por ser ardiloso, inteligente, sagaz como nenhum outro homem grego. A guerra em Tróia não teria sido vencida pelos gregos não fossem os conselhos de Ulisses e o estratagema do cavalo de Tróia, por ele criado. Ulisses passou dez anos tentando regressar à Ítaca, seu reino, após tempo equivalente em guerra. Foi sua inteligência, paciência e persistência que o permitiram não só vencer Tróia e as dificuldades criadas por Netuno para seu regresso como também reassumir seu trono.

Com Aquiles e Ulisses, Homero demonstra as duas principais qualidades desejadas pelos homens gregos: bravura e inteligência. Não há, porém, um compromisso nacional com esses elementos, pois as obras não têm a intenção de fazer propaganda nacionalista. É o que distingue, principalmente Ilíada e Odisséia de Eneida.

O poema de Virgílio, como está informado na ficha de vocês, foi encomendado pelo imperador romano Augusto, para que uma obra romana, contando a origem de Roma, superasse a memória das obras gregas e alçasse Roma a um patamar superior na memória da Antigüidade. Daí Virgílio faz o resgate de Enéias, guerreiro troiano sobrevivente da invasão dos gregos, que lidera os troianos por anos de navegação e batalhas até conseguirem se estabelecer na península Itálica e fundar a cidade que originou Roma. Enéias, o herói, além de grande guerreiro é um homem religioso, que se submete aos deuses. A ele, então, são associadas as duas grandes qualidades do homem romano, e que todos os romanos deveriam ter: bravura para a guerra e submissão religiosa aos desígnios dos deuses - qualidade que se associa à piedade e à justiça.

Como os heróis clássicos são homens incomuns, que estão em um nível se evolução superior, também o herói classicista precisa estar. Daí Camões resgata Vasco da Gama: grande navegador, grande guerreiro, homem justo e cristão. Vasco da Gama vai personificar todo o ideal de perfeição de um homem português em Os lusíadas: bravura (contra o mar e as guerras) e submissão religiosa. Bastante parecido com Enéias, não é verdade?

Sim e não é à toa essa semelhança, dada a imitação de modelos que caracterizam o Classicismo e que acompanham não apenas o conteúdo, mas também a estrutura dos textos. Essa estrutura-modelo se divide em duas partes:

Estrutura lógica:
São as partes lógicas do relato, semelhantes à introdução, desenvolvimento e conclusão que vocês estudam em produção de texto. À introdução correspondem as três primeiras partes lógicas da epopéia: proposição, invocação e dedicatória. Ao desenvolvimento corresponde à narração e à conclusão o epílogo.

Entenda melhor: uma introdução, em um texto dissertativo, apresenta o tema que será discutido e a abordagem dessa discussão. Na epopéia a proposição indica o tema a que o poeta se propõe a desenvolver; a invocação é a solicitação do apoio das musas (e das ninfas, em Camões) para que o poema seja bem feito; a dedicatória é o oferecimento do texto a alguém importante.

Já o desenvolvimento apresenta os argumentos que justificam o ponto de vista defendido no texto. O equivalente a isso, no texto narrativo, é a própria narração em si.

Por fim, a conclusão, em um texto dissertativo, é a demonstração final da tese, do que pensa o autor sobre os argumentos expostos. Camões também faz essa avaliação final no epílogo, mas

25.2.07

A Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil

Hello, pessoas!

Trabalhando já no contexto histórico do século XVI? Se tiverem dúvidas, procurem Gerardo, de História! Ele já disse que orienta vocês sim!

No nosso trabalho com Quinhentismo, já lemos excertos de trechos distintos de obras da literatura de informação, aquela que tem como objetivo reportar à coroa portuguesa e ao povo europeu em geral como é o novo mundo, sua terra, sua natureza e seu povo. Vimos, também, que, além deste tipo de literatura, há um outro, que estudaremos mais à frente: a literatura de catequese. De antemão, já expliquei a vocês que o intuito desta literatura de catequese é promover a conversão dos índios ao catolicismo. Portanto, ainda não estamos no campo da literatura propriamente dita, pois, ainda que os autores da literatura de catequese utilizem poemas, peças de teatro e canções, o objetivo utilitário destas produções (converter os gentios) é que está em primeiro lugar.

Dos textos da literatura de informação do quinhentismo brasileiro, o mais importante, sem dúvida, é a Carta de Caminha. Como documento histórico, ela faz o papel de "certidão de nascimento" do nosso país, e de nossa identidade enquanto nação também. Identidade que vai sendo moldada, aos poucos, a partir do olhar estrangeiro do homem europeu sobre nossa terra, e que, ao longo do processo de colonização, vai se alterando, em decorrência da miscigenação étnica, do sincretismo cultural e da firmação de uma população que aos poucos se independentiza da Metrópole. Todo esse processo culmina, politicamente, na proclamação da independência brasileira. Mas não é uma processo que termina na Independência, em 1822. Afinal, ainda com ela, continuamos economicamente dependentes (como ainda o somos) de países desenvolvidos e continuamos absorvendo uma cultura estrangeira que vai sendo misturada com a nossa. Ser brasileiro, talvez, no fim das contas, se defina justamente no "ser antropófago" dos nossos índios: alimentarmo-nos do que nos faz mais fortes, e desprezar o resto. Oswald de Andrade, no Modernismo, e Caetano Veloso, na Tropicália, que o digam! Pena que estes movimentos são assuntos que vocês só estudarão no terceiro ano!

A Carta, como podemos perceber na colagem que fiz dela (como eu avisei, seria impossível lermos as 13 páginas em aula - o que não impede vocês de buscar o texto integral: ele já foi publicado em livro e existem muitos sites aqui na web que o disponibilizam) manifesta os dois interesses do colonizador em nossa terra - a conquista material e a espiritual - e é um texto de motivo edênico. O interesse pela lucratividade que se poderia obter com a exploração da nova terra se manifesta na associação do gesto do indígena que aponta para elementos do navio e depois para a terra como um sinal de que lá se encontraria a matéria prima daqueles objetos: o ouro e a prata. Já o interesse pela conquista espiritual dos índios - através de sua catequese - está bem demarcado na declaração de Caminha, ao fim do texto "o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente". Nessa afirmação, Caminha demarca que, dada a ausência de sinais da possibilidade de ouro e prata no Brasil, a atividade que dará mais lucro certo a Portugal é a conquista espiritual. Lembrem que nesta época, dados os eventos da Contra-Reforma, Portugal buscava o prestígio junto à Igreja e ao Papa.

O motivo edênico, por sua vez, aflora na apresentação do esplendor da natureza brasileira e da inocência dos gentios. O que mais se assemelharia ao Éden do que gente bonita, "de bons rostos e bons narizes" que tem total inocência - aos olhos da moral cristã - acerca da nudez do corpo e que habita uma região, provavelmente uma ilha, em que abundam arvoredos, terra chã (plana, chão) e praia formosa? Infelizmente a moral católica do século XVI e seu radicalismo acerca de certo, errado, pecado e salvação e a conquista material, com a exploração do pau-brasil, da cana-de-açúcar e do ouro vão "contaminar" este paraíso inicial com tudo aquilo que a Europa tinha de negativo: repressão, ganância e luta pelo poder.

Feitas estas considerações, vamos às respostas da ficha.

A questão 1 lembra o estranhamento do português diante dos índios e pergunta o que chama a atenção em relação às índias. Os trechos em que Caminha tratava dessa visão sobre as índias foram suprimidos, e é preciso inferir a respeito dessa impressão, a partir do que foi apresentado como impressão sobre os índios. Ora, Caminha ressalta em sua descrição o exotismo dos índios em seu visual e a inocência com que exibiam "suas vergonhas". Considerando-se isso, podemos afirmar que a nudez inocente das índias é algo tão exótico para o conquistador português que certamente provocou o estranhamento.

A questão 2 destaca uma passagem da carta em que Caminha relata os sentimentos provocados pela visão das índias nuas. Nesse trecho, o autor vale-se da dupla atribuição de sentidos à palavra "vergonha". A "vergonha" dos índios e índias são seus órgãos sexuais. A vergonha do conquistador é o constrangimento diante da nudez alheia. Se lembrarmos do excertode Eduardo Bueno, "Vida a bordo", do livro Brasil - Terra à vista!, até o banho era considerado nocivo à saúde, mito criado para reprimir a lascívia que a visão do corpo poderia gerar no bom cristão. Portanto, a formação moral e religiosa do conquistador associa sexo e nudez a pecado, e se confronta com a moral indígena, que encara estes elementos com completa naturalidade.

A questão 3 trata da comunicação entre portugueses e índios. Na frota de Cabral havia três intérpretes, um para línguas africanas (e que foi o primeiro negro a pisar no Brasil), um para o idioma hindu (afinal a intenção era realmente ir para a Índia - o Brasil foi um mero pit-stop) e um para outras línguas asiáticas, se não estou enganada.
Apesar de todo este aparato lingüístico, porém, não foi possível haver comunicação entre portugueses e os índios da costa brasileira, que usavam uma língua completamente desconhecida. (Uma não, várias! Havia milhares de tribos distintas e embora muitas compartilhassem de uma mesma língua geral, havia milhares de idiomas diferentes também.)
Como, porém, contar ao rei que com todo o aparato levado, a frota de Cabral foi incapaz de se comunicar com gente tão primitiva? A solução de Caminha foi culpar o mar, que quebrava na costa e fazia barulho. Assim fica adiado o problema e a tripulação não recebe o rótulo de incompetente pelo receptor do texto.
Isto foi no episódio de Nicolau Coelho, sendo as considerações anteriores, portanto, as respostas para os itens A e B da questão 3. Mas antes de prosseguirmos com a questão 3, deixem-me fazer mais uma observação. Posteriormente, quando os dois índios jovens são levados a bordo, caminha lança uma interpretação para os gestos de aponte, demonstrando ao rei que entende o que o silvícola quer dizer, mesmo sem entender o que ele fala. Ou seja, mais uma vez ele contorna o problema, mostrando (ou pelo menos tentando) que a culpa do não-entendimento anterior realmente fora do mar.

A questão 4 trata do primeiro contato dos índios com Cabral (até então havia se limitado a Nicolau Coelho e aos marujos). Relendo o trecho que trata disto, podemos perceber que Cabral procurou assinalar seu posto de comando com elementos culturais que na Europa seriam facilmente entedidos: estava sentado, bem vestido, e com um estrado de alcatifa onde repousava os pés. Na Europa estes elementos dão destaque à posição superior de quem conta com eles. Mas para os índios brasileiros, não significavam nada. Tanto que eles ignoram o capitão e não o cumprimentam. As disparidades das duas culturas, portuguesa e gentílica são fortemente assinaladas nessa passagem.

A questão 5, por fim, trata dos interesses que já foram discutidos no início deste post. Os portugueses, de início buscavam metais preciosos e como não podem confirmar sua existência, há a sugestão da conquista espiritual dos indígenas, através da catequese.

Bom, that's all folks!
Bom domingo e até amanhã!

17.2.07

Exercícios com os textos do século XVI

Olá, queridos!

Eu sei, eu demorei dessa vez. Peço perdão e deixo uma justificativa: na soma de três escolas, são 900 e alguns vocês e eu administrando esse pelotão. Por isso, pode demorar um pouquinho chegar a atualização daqui, mas lembrem-se do ditado: Tarda, mas não falha! E eis me aqui, em pleno carnaval, deixando o post com as considerações sobre os textos do século XVI que trabalhamos e a correção dos exercícios sobre eles.

Antes de mais nada, para quem não registrou os títulos que foram cortados, aqui vai:
Texto 1: História da Província de Santa Cruz
Texto 2: Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil
Texto 4: A verdadeira história dos selvagens nus e ferozes devoradores de homens

Como vimos em sala, os objetivos, os emissores e os receptores dos quatro textos, de maneira geral, são os mesmos. Todos visam informar alguém (o povo em geral, da Europa ou de Portugal em específico - apenas o texto 2 fica mais restrito, pois dirige-se à coroa) a respeito da nova terra, seus habitantes e a cultura deles. Os excertos (trechos) que lemos focaram-se no índio, mas as obras em que se inserem e os demais textos da mesma época também abrangeram a natureza, a fauna, a flora e o clima brasileiros.

Esta constatação nos permite responder à questão 1 da ficha: os elementos que se mostram em comum nos textos é o objetivo, a função social exercida por quem escreve (mesmo o Pe. Manuel da Nóbrega e Hans Staden, que não estiveram aqui com o propósito de atuarem como informantes, acabam cumprindo este papel ao produzirem os textos que lemos), o tema e o público alvo.


A informação veiculada pelos textos baseia-se, principalmente, na descrição física e cultural dos gentios. Quem se difere um pouquinho, neste aspecto, é o texto de Hans Staden, de caráter narrativo. Notem, entretanto, que junto à narração (o que aconteceu) existe uma descrição (como aconteceu). Staden assinala como os gentios são perigosos através de uma descrição de comportamento. Portanto, podemos responder à questão 2 assinalando que a para cumprir o propósito informativo da produção escrita - e assim saciar a curiosidade européia sobre o Novo Mundo - , os cronistas (historiadores do tempo presente) e os viajantes concentravam-se na descrição da terra e de sua gente, seja através da caracterização (como nos textos 1 e 2) seja através do relato de costumes (texto 3) ou de eventos específicos (texto 4).

O mote da descrição (o índio em seus aspectos físicos e culturais) aproxima os quatro textos, de origens e posições ideológicas distintas. Em todos eles, também, prevalece um ponto de vista estrangeiro intrigado com o exotismo do indígena. Esta constatação responde à questão 3. O ponto de vista ideológico singular da Carta de Caminha, destarte, destaca este texto dos demais. Caminha considera os índios bonitos (bons rostos e bons narizes) e não apresenta reprovação aos costumes indígenas, como o fez explicitamente Gândavo e Hans Staden (como comprova o título da obra), e implicitamente Pe. Manuel da Nóbrega. Este implícito está tanto na seleção do ritual antropofágico do indígena como assunto como na relação de Nóbrega com este aspecto cultural: para um padre católico contemporâneo à Contra-Reforma Católica uma atitude como esta representa, no mínimo, um estado completo de incivilidade, o qual, provavelmente, conecta-se a tentações demoníacas e perdição da alma. Tais comparações levam à Carta de Caminha como resposta para a questão 4.

A questão 5, pode ser solucionada de duas formas. Podemos considerar que no nível explícito, o objetivo dos textos realmente não se altera: informar a população européia sobre o Novo Mundo. É uma resposta precisa e aceitável como plenamente correta, inclusive em questão de prova (bastanto, apenas, a apresentação da justificativa para a conquista da totalidade de pontos a ela reservada).

Todavia, podemos também lançar um olhar mais profundo sobre a ideologia dos textos e seus implícitos. O que desejam os autores ao selecionar as informações que apresentaram em seus textos? Quem informa alguém, informa por uma razão específica, que raramente é altruísta. Gândavo, por exemplo, em seu texto reduziu os índios a animais, com expressões como machos e fêmeas. Além disso infere que a ausência de F, L e R significa a ausência de Fé, Lei e Rei naquela cultura. Como interpretaria isso Portugal? O que se deve fazer com um povo que não tem Fé, Lei e Rei, segundo a interpretação do homem europeu no século XVI? Que ação é impulsionada por essa informação? A dominação parece ser a resposta mais acertada, não é? Portanto, podemos considerar que Gândavo tem como objetivo, também, estimular o povo português a tomar para si a terra e impor sua Fé, sua Lei e o seu Rei àqueles que não têm.

Esta intenção colonizadora e dominadora inexiste, entretanto, no texto de Caminha, pelo menos no excerto que lemos. Aparentemente, Caminha se manteve mais neutro em sua posição ideológica, e a informação, no excerto, realmente parece servir apenas para satisfazer a curiosidade real sobre o Brasil.

E quanto a Nóbrega e Staden? Os excertos parecem intentar demostrar como é perigosa a nova terra e seus habitantes. Provavelmente depois da leitura destes textos, o homem do século XVI não esperaria muito para reagir de forma violenta se encontrasse com indígenas, como realmente acabou ocorrendo - e resultando em extermínio.

Uma ou outra forma de se responder à questão 5 é satisfatória para nosso início de trabalho. Mas assinalo que esta segunda demonstra uma capacidade de leitura muito mais atenta e aprofundada dos trechos. Gostaria muito que, ao fim de nosso ano letivo, boa parte de vocês tivessem este tipo de análise crítica. Se Deus quiser, chegaremos lá.

Restou-nos a questão 6. Como já assinalamos anteriormente, o título da obra de Hans Staden apresenta um ponto de vista negativo sobre os índios brasileiros: selvagens demonstra um julgamento de valor que parte do ponto de vista do homem europeu. Além disso, as características nus, ferozes e devoradores de homens representam pecado, violência e pecado/ausência de pudor, respectivamente. Isto responde ao item A.

Vamos ao item B: "descobrir" e "achar" denominam ações diferentes? Pensemos: Isaac Newton "descobriu a lei da atração dos corpos" ou "achou a lei"? Em que consiste uma ação e outra? Ora, nós achamos aquilo cuja existência se conhecia, mas que tinha um paradeiro ignorado ou esquecido. Achamos uma nota de 10 reais no bolso da calça guardada. Um dia aquela nota era conhecida e ali foi esquecida. Achamos um livro que guardáramos em algum lugar, mas que foi dali retirado por outra pessoa. Se Newton houvesse "achado" a lei de atração dos corpos, ela já seria conhecida antes. Como essa lei não era conhecida, trata-se de uma "descoberta". Por isso, dizer que os portugueses "acharam" o Brasil associa-se à idéia de que já se conhecia a existência do Brasil, mas que sua localização não era precisa. Descobrir o Brasil, por outro lado, é encontrar uma terra completamente desconhecida.

Para concluirmos, observem o item C: que título se conecta a uma série de eventos e a uma obra longa. A palavra História do título dos textos de Gândavo e de Staden salta aos nossos olhos neste momento. Porém, apenas o título de Gândavo tem esta conotação, pois é a história de toda uma terra, e não apenas de um povo. Presume-se que na província de Santa Cruz existam muitos povos, além de componentes naturais que serão abordados em um compêndio sobre sua história. Já "os selvagens nus e ferozes devoradores de homens" delimitam a concentração do texto de Hans Staden apenas a este povo. Por isso, a resposta é o título do texto 1.

Terminamos desta vez por aqui! Aproveitem MUITO o carnaval!!
Beijos e até a próxima!

5.2.07

Exercícios de Interpretação do texto Sangue na Areia

Sejam bem-vindos! Este foi um espaço que deu muito certo em 2006 e espero que seja assim também em 2007. Aqui eu deixarei as resoluções de todos os nossos exercícios, textos de apoio e e complementação, material de revisão dos assunto e vocês podem usar os comentários para tirar dúvidas. Assim que for possível, geralmente uma vez por semana, eu postarei aqui e responderei aos comentários.

Antes das respostas das questões em si, um comentário que eu fiz na maioria das turmas e que alguém pode não ter entendido (e quem faltou não terá a oportunidade de ter contato com esses conceitos a não ser através daqui): todo texto, mesmo que seja um poema sobre o amor ou uma redação científica, tem ideologia. Ter ideologia significa ter um posicionamento político/social. Um poema sobre o amor tem esse posicionamento na medida em que ao expressar o amor, seu autor expressa, mesmo que de maneira muito sutil, sua perspectiva sobre os papéis sociais de homens e mulheres e sobre os relacionamentos humanos. Um texto científico, mesmo que pretenda ser imparcial, já tem um posicionamento ideológico desde o momento em que escolhe seu tema (uma escolha significa dar importância a um elemento em detrimento de outros). Além disso, todo texto de caráter científico segue uma teoria, um entendimento sobre o seu assunto. Caso seu objetivo seja confrontar teorias porque não escolheu ainda uma especificamente, esse também é um posicionamento. Até a imparcialidade é ideológica, pois é a posição de onde se busca olhar o mundo com isenção de julgamento (o que é impossível, no fim das contas, pois sempre há algo de subjetivo em nossas escolhas).

Se todo texto tem uma ideologia, ele também tem uma tese, ou seja, uma opinião. Mesmo que seu objetivo não seja comprovar para as outras pessoas de que essa tese é a mais correta sobre o tema, todo autor tem uma opinião sobre aquilo que ele escreve ou fala. O que ele não precisa apresentar, necessariamente, são os argumentos. Argumentos são as idéias que usamos para mostrar ao receptor do nosso texto de que a nossa tese é factível, possível, e que ele deveria concordar conosco. São as idéias que buscam um convencimento do leitor a respeito da tese.

Sabendo disso, podemos entender melhor o que foi pedido na primeira questão do exercício. O enunciado já nos apresentou a tese defendida em Sangue na areia: o filme turistas não prejudica a imagem do Brasil no exterior. Para conseguir comprovar isto ao leitor, Osmar Freitas Jr fez uso de duas idéias principais e de algumas secundárias que as desenvolveram. A idéia principal que ganhou mais força é a de que Turistas é um filme ruim e clicherizado, que foi desprezado pela crítica, teve pouca lucratividade e possivelmente será logo esquecido.
Junto a essa idéia, o jornalista expôs outra, anteriormente no texto, e que tem como finalidade desacreditar os autores do filme. Com a apresentação dos dados estatísticos a respeito do desconhecimento dos americanos sobre seu próprio país, foi posta em cheque a capacidade dos americanos (e o filme é americano) de conhecerem a realidade de outros países. Com esta idéia, o autor desacredita a competência do autor do filme de apresentar o Brasil como ele é. A obra acaba sendo um filme feito por alguém que não conhece o país e por isso aquilo que se diz não tem credibilidade.

Alguns alunos perguntaram-me se o fato de o Brasil, segundo o texto, ter uma imagem negativa no estrangeiro anterior ao filme (e nisso chegamos na terceira questão) não poderia ser considerado um argumento favorável à sua idéia. E a resposta é que realmente não podemos deixar de perceber nesse dado um elemento que põe em cheque o impacto negativo do filme, visto que antes dele já havia essa imagem de miséria, violência e sexo fácil. A comprovação de que a imagem é anterior a Turistas é a convenção feita em 2004 para tentar recuperar a imagem do Brasil.

Por fim, o outro elemento que exporta a imagem do Brasil para o exterior mencionado por Osmar Freitas Jr foram as notícias ruins veiculadas pela mídia. Alguém me perguntou, creio que no 1ºA, se a Embratur não faria isso também. Não deixa de ser função da Embratur, mas o texto não mencionou este papel, então melhor nos atermos às notícias, ok?

Espero que as possíveis dúvidas tenham sido resolvidas!
Grande abraço e até a próxima!