2.2.09

"Mestre é aquele que de repente, aprende" -- Guimarães Rosa

E aí, pessoas? Tudo bem com vocês? Sejam bem-vindos (eu juro que vou me policiar com a ortografia nova, mas ensinar truque novo pra cachorro velho é uma coisa meio delicada, tá? Paciência comigo, por favor...)!

Quando eu digo sejam bem-vindos é sincero. Não é aquele "bom dia" que a gente dá às 6:40 no elevador no primeiro dia de aula, morrendo de sono e de esganar o infeliz que decretou o fim das férias e do sono até as 10:30. Pode parecer estranho, mas eu realmente fico muito feliz com a presença de vocês, aqui, nesse cantinho virtual e em sala de aula. E fico feliz com a presença de cada um, dos cdfs que gostam de ler, que curtem "Sociedade dos Poetas Mortos" (também AMOO) até a galera da swingueira que gosta é mesmo de agitação. É verdade! E vou explicar por quê.

Sabe aquele recadinho da Madre Teresa no texto das duas primeiras aulas de hoje? "A mais bela distração? O trabalho". Eu disse isso pro 1º B, que me aturou hoje por três aulas seguidas, e repito: é verdade! Quando você faz o que você ama, não vê o tempo passar, não quer que ele passe. E eu amo ensinar. Amo estar com vocês (mesmo quando aluno me azucrina o juízo - sempre tem um dia em que alguém azucrina o juízo... faz parte).

Não vou mentir que foi sempre assim. Porque quando eu comecei, há muitos e muitos anos (precisa dizer quantos não, né? Que bom!), eu amava era a minha disciplina. Eu amava Literatura. Como amo, profundamente, até hoje.

E amar a disciplina, não é amar ensinar. São coisas diferentes. Porque existem amores diferentes, sabe? Existem alguns que surgem de repente, no primeiro olhar. E eu digo que o meu amor pela Literatura é assim. É um amor que é uma paixão. E paixão e amor, embora sejam dois sentimentos maravilhosos, eles têm diferenças. Não é uma questão de maior nem mais fundo... É uma questão de aceitação.

Quando a gente se apaixona por uma coisa, por alguém, dificilmente a nossa entrega é completa. Tanto que apaixonado briga que só a peste! Apaixonado, quando descobre o defeito do outro, geralmente se decepciona, briga com ele, faz cara feia. E eu e a Literatura temos um pouquinho disso, eu com ela, na verdade. Tem coisa de que eu não gosto, tem coisa que eu amo profundamente e tem coisa em Literatura que nem arte eu acho que é (essa é uma discussão pra depois, tá?). É aquela paixão que vira a cara pra certas coisas, briga e depois liga chorando pedindo pra fazer as pazes. E fica tudo bem até dar de cara com aquele defeitinho de novo.

Com ensinar já foi assim. Hoje está ficando cada vez mais diferente. Eu fui aprendendo a amar ensinar e aí eu comparo com aquele amor maior. Aquele daqueles casais já idosos, que passaram a vida toda juntos, que conhecem cada defeito, cada qualidade, cada expressão de olhar do outro. E que estão um do lado do outro, sempre. Com ensinar foi assim. O amor foi surgindo da convivência, da experiência, no dia a dia. Ensinar tem muitos defeitos, muitas dificuldades, para ser bem clara. A gente se debate com a pressão de ensinar coisas que acha que não deviam ser priorizadas, ensinar para gente que, porque não quer se abrir para o mundo, acha que deve marcar sua rebeldia destratando ou desrespeitando... A gente se debate com uma cultura que diz que a educação deve ser utilitária... Que a gente deve aprender coisas porque elas são importantes para a profissão, e, consequentemente, para a sobrevivência e só por isso se deve aprendê-las. Ou que é o que precisa para passar de ano, então basta aprender para passar na prova final.

Ser professor, hoje, no Brasil, é bem complicadinho. Mas eu aprendi a amar ser professora. Aprendi a amar ser EDUCADORA. Eu aprendi a conviver com todas essas coisas com paciência, porque olhando o todo eu vejo nele uma beleza que me fascina. Eu vejo que em fevereiro me é dado o direito de conviver com pessoas que, de uma forma ou de outra, não são mais as mesmas em dezembro. Eu vejo a vida em transformação bem na minha frente, às vezes, por pequenas coisas, na palma da minha mão. Como quem consegue observar os minutos exatos de um casulo que se abre e em que a borboleta enxuga as asas. Às vezes dá até para ver as borboletas voarem.

E isso eu não aprendi sozinha. Raramente a gente aprende algo só. A gente aprende de repente, talvez, mas não só. Alguém, mesmo sem saber, mostra as coisas e às vezes sem saber também, a gente imita. Como criança pequena que imita pai e mãe.

Quem me ensinou a amar ensinar, a amar educar, foram os meus alunos. Os tantos pequenos milhares com quem tive o privilégio de conviver. E foram todos eles... As patricinhas maquiadas, os nerds, a galera da política, os palhaços, as almas sebosas, os dorminhocos, os esquecidos, os atletas, as meninas da dança, os atrasados, os emos, os forrozeiros, alvi-rubros, rubro-negros, tricolores, real-madrileños (se é que é assim que se chama)...

Por isso, quando eu digo bem-vindos, eu digo de coração e de sorriso aberto. Ter vocês na minha vida é um motivo de muita alegria. Eu acabei de ganhar novos professores, que me re-ensinam, todos os dias, coisas importantes como amizade, companheirismo, determinação, acolhida, carinho. Obrigada por aquilo que eu sei que vocês vão me ensinar este ano.

E para terminar, como não poderia deixar de ser, afinal este é um espaço para Literarizar a vida, transformar tudo em literatura, vou deixar com vocês um trechinho de algo que eu gosto muito. Espero que vocês gostem também!

Um xêro!


No silêncio da noite, caminhei em vossas ruas, e meu espírito entrou em vossas casas,
E vossos corações bateram em meu coração, e vosso hálito soprou sobre a minha face, e eu conheci todos vós.
Sim, conheci vossa alegria e vossa dor, e em vossos sonos, vossos sonhos foram meus sonhos.
E muitas vezes estive entre vós, como um lago entre as montanhas.
Refleti os picos em vós, e as encostas íngremes, e até mesmo os rebanhos de vossos pensamentos e vossos desejos.
E ao meu silêncio, chegou o riso de vossos filhos em riachos, e o desejo de vossos jovens em rios.
E quando chegaram a mim, os riachos e os rios não cessaram de cantar.
Mas ainda mais doce que o riso e maior que o desejo, veio a mim
O que era ilimitado em vós;
O vasto homem, dentro do qual sois apenas celas e força;
Ele, em cujo cântico todo o vosso cantar é apenas pulsar silencioso.
É neste vasto homem que sois vastos,
E foi contemplando-o que contemplei a vós e vos amei.
(...)
Dei menos que uma promessa, mas vós fostes ainda mais generosos.
me destes minha profunda sede de vida.
Certamente, não há presente maior para um homem do que aquele que transforma todos os seus objetivos em lábios sedentos e toda a vida em uma fonte.
E nisto está minha honraria e minha recompensa -
Quando venho à fonte para beber, encontro a própria água, viva e sedenta:
E ela bebe a mim enquanto eu a bebo

Gibran Khalil Gibran, O profeta

Um comentário:

Thê disse...

Acredite Bianca, que para o 1º B te aturar 3 aulas não foi tão ruim assim ;) hauahaua;
;*