24.3.08

A Carta de Caminha

Olá, pessoas!

Queria MUITO ter postado isso aqui antes, mas sem internet em casa é muito complicado me dedicar aos textos de apoio daqui. Pelo menos consegui vir um pouquinho antes das provas. Um pouquinho igual a um triz para alguns de vocês. Então, por isso mesmo, chega de blablablá e vamos direto ao que interessa: a Carta de Caminha.

A Carta de Caminha é o documento de maior destaque da literatura de informação do nosso Quinhentismo. O fato de ser o primeiro texto acerca do Brasil, o que lança a discussão a respeito de que lugar é esse e quem são esses que o habitam é um dos motivos principais para isso. Um dos principais, mas não o único. Caminha é um escrivão dedicado e que procura se destacar em sua atividade aos olhos do rei (até mesmo para poder ousar a fazer o pedido de regresso de seu genro, José Osório ao território da Metrópole, no fim da carta) e para isso minuncia ao máximo que pode em sua descrição acerca do novo território conquistado. Com isso, o registro por ele feito do deslumbramento com a geografia brasileira e o choque cultural com os gentios é cuidadoso, preciso e, aparentemente, imparcial.

Aparentemente porque, embora Caminha anuncie que pretende ser objetivo na Carta, a sua perspectiva pessoal a respeito do índio brasileiro e de seus costumes se faz notar. O índio é reiteradamente descrito como belo, bom, inocente, quase um bom selvagem de Rousseau 200 anos antes da teoria do filósofo francês. Nem mesmo o fato de os nossos indígenas não perceberem a figura de autoridade em Cabral, na sua postura de chefia (sentado, bem vestido e com o colar de ouro) é assinalado como falta de civilidade: o escrivão prefere ressaltar o comportamento indígena ao se deparar com o ouro do colar e a prata do castiçal e daí conjecturar a existência desses metais naquela terra.

Além disso, o índio aparentemente está moldado para receber a religião cristã: o índio aparentemente não tem crenças (é a impressão obtida no primeiro contato) e tende a imitar os cristãos em seus ritos (como ocorre durante a missa realizada para a comemoração da Páscoa). Claro que essa imitação não se dava por uma tentativa de incorporação da religiosidade cristã, mas sim por uma tentativa de apreender a língua e os costumes da cultura portuguesa, que surpreendia os gentios tanto quanto a sua surpreendia os portugueses. Entretanto, num período de histeria religiosa, qualquer sinal positivo a respeito da receptividade ao catolicismo seria fatalmente interpretado como tendência à conversão.

Por fim, a nudez do índio é fruto da inocência e é motivo de admiração não apenas pelo seu elemento exótico, mas também porque os corpos dos índios são belos e, como ele sempre ressalta, as vergonhas das índias são "saradinhas", tão saradinhas que fazem vergonhas às mulheres européias "não terem as suas como as delas".

O uso da palavra vergonha, na Carta, por sinal, é um recurso bastante interessante. Atrevendo-se a usar um certo estilo pessoal, o cronista Caminha freqüentemente faz um jogo com os significados da palavra, que usada tanto para se referir ao pudor sexual do colonizador, cuja educação moral e religiosa encara a nudez de forma repressiva, como aos órgãos sexuais dos gentios. Vergonha e sexualidade são elementos intimamente conectados na cultura portuguesa nesse início de Idade Moderna, visto que a ligação do Estado e da cultura de Portugal à mentalidade Contra-Reformista inibe o avanço do antropocentrismo e, conseqüentemente, da valorização do homem, de seu corpo e dos prazeres que se pode desfrutar através dele.

Vale destacar também, a respeito da Carta, a postura de Caminha em não apenas demonstrar para o rei o valor dos indígenas, mas também valorizar os esforços da expedição e os benefícios que Portugal pode ter em se dedicar à colonização do local. Observe que não apenas o escrivão, no início da Carta, expõe detalhadamente os procedimentos para a aproximação da terra, mas também isenta a culpa da falta de entendimento entre nativos e colonizadores do intérprete para isso designado. Para uma expedição que contava com três intérpretes (Nicolau Coelho, Gaspar da Dutra e um negro de nome desconhecido) , uma falha desse tipo era vergonhosa. Caminha, ciente disso, procura uma outra causa para a falta de comunicação que não o fato de a língua dos indígenas encontrados ser completamente desconhecida - e nisso culpa o barulho das ondas do mar.

Quanto aos benefícios da colonização, a postura de Caminha assinala o quanto a cultura portuguesa de sua época está atada aos ideias Contra-Reformistas que imperaram em Portugal. Visto que a ambição de conquista material aparentemente não poderia ser satisfeita na colônia naquele momento - não foi encontrado ouro, nem prata, nem ferro - é a conquista espiritual da colônia um bem precioso que merece os esforços de cruzar o Atlântico. Essas duas ambições (que geraram os dois tipos de produção escrita no Brasil no século XVI - a literatura de informação e a de catequese), a conquista material e espiritual do Novo Mundo, são igualmente expressas na Carta.

Para terminarmos, por hoje, uma informação curiosa: Caminha pouco observou de nossa terra ao vivo. A maior parte do tempo, ele ficou recluso no navio, compilando as informações transmitidas pelos expedicionários que realmente desembarcaram. O único momento que se sabe que possivelmente ele vivenciou com os pés no chão brasileiro foi o da primeira missa, por ele relatada.

22 comentários:

Álvaro (1E) disse...

bianca, tu podes postar aqui algum exemplo de resenha para a gente ter uma ideia de como fazer o trabalho do Auto da Compadecida??

Valeu!

Professora Bianca disse...

Álvaro,

Consulte as críticas de cinema do site Omelete (www.omelete.com.br). Particularmente eu indico a crítica feita ao filme de Michael Moore, que estreou na semana passada, se não me engano, e a crítica a 10.000 a.C. Mas qualquer uma das críticas de cinema disponíveis no site são boas bases para uma boa resenha.

Anônimo disse...

Bianca, gostaria que você explicasse como se estuda Literatura, pois tenho encontrado muita dificuldade no estudo da sua matéria e quando solicito ajuda de amigos todos estao com o mesmo problema.
Agredeço desde já.

Professora Bianca disse...

Anônimo,

Você precisa:

1 - Prestar atenção às aulas, acompanhando a leitura dos textos e os comentários.

2 - Fazer os exercícios em casa, anotando as dúvidas que tiver sobre eles, seja sobre o conteúdo, seja sobre o enunciado.

3 - Estudar os assuntos que estão sendo trabalhados em sala em seu livro didático e fazer os exercícios nele propostos, anotando as dúvidas.

4 - Levar as dúvidas para a discussão em sala de aula. Se você não se sentir à vontade para expô-las na frente de todos, pode fazer isso em particular, no momento de intervalo, ou aqui, pelo blog.

Anônimo disse...

Bianca,eu tenho uma pequena duvida
por que a carta de pero vaz de caminha é literatura??
grata!

Anônimo disse...

oá Bianca sou uma aluna e tenho algoa a perguntar:
Nós sabemos que foi Pero Vaz de caminha o autor da carta dirigida ao rei D. manuel I ..mas gostaria de saber como Caminha descreveu os motivos ?

Professora Bianca disse...

Anônima,

Te disseram que é, foi? É não! Saca só: existem duas características básicas que compõe um texto literário, que são a predominância da função poética da linguagem e a recriação do mundo - ou criação de um novo mundo - sob o olhar subjetivo do artista.

Como assim? Peraí que eu explico...

A função poética da linguagem é o uso proposital dos mecanismos da língua para criar um efeito estético, um efeito de beleza. Geralmente conseguimos isso através das figuras de linguagem (metáfora, metonímia, personificação, antítese, lembra?) e de outros recursos, como a rima, o ritmo, a métrica (principalmente no caso de poemas). Muitos textos que não são literatura têm preocupação em usar esses recursos, mas o objetivo principal deles é outro: informar, persuadir, explicar o significado de outras palavras, expressar emoções... No caso do texto literário, o objetivo principal é conseguir esse efeito estético, é a confecção daquilo que chamamos "arte".

E a tal da recriação pelo olhar subjetivo? Parece coisa complicada, mas não é não. Vê só. O mundo está aí fora, nós nos relacionamos com ele e com tudo aquilo que o compõe: pessoas, engarrafamento, violência, amor, natureza, família... Mas quando esses elementos são tema de uma obra de arte, a forma como eles são representados não é exatamente como eles são, mas como o artista percebe aquela arte. Uma mesma pessoa pode ser percebida de formas muito diferentes. Um rapaz, por exemplo, é uma pessoa para a namorada, outra para o irmão, outra para a mãe, outra para o pai, outra para os amigos da escola, outra para os professores... Se cada um desses indivíduos for registrar o seu olhar individual, pessoal, subjetivo sobre o rapaz, teríamos obras de arte diferentes, com características diferentes, sobre o mesmo tema. Entendeu agora?

E a Carta da Caminha? Olha só como ela NÃO se encaixa em nenhum desses critérios. Nem Caminha privilegia o fazer estético da sua mensagem, a função poética da palavra, nem ele tenta recriar o mundo a partir de um olhar subjetivo. Pelo contrário, ele PROMETE ao rei que tentará ser o mais fiel à realidade possível para não a "alindar nem afear".

Essa confusão de a Carta ser um texto literário é provocada por duas coisas: a importância da Carta para a história da Literatura, especialmente para o Romantismo e o Modernismo (Oswald de Andrade, por exemplo, apropria-se seguidamente da Carta, parodiando-a) e a linguagem usada para a sua construção. Há quem enxergue na elegância do texto de Caminha literariedade, ou poeticidade. A maior parte dessas pessoas esquece, entretanto, que esse estilo no século XVI era corrente nas crônicas históricas, gênero textual em que a carta acaba se inserindo.

Bom, é isso. Qualquer coisa grita aí! :P

Professora Bianca disse...

Anônima 2,

Desculpa, meu anjo, mas eu não entendi sua pergunta. A que motivos você se refere? Aos da colonização?

Anônimo disse...

Oi
eu tenho uma pergunta.
gostaria de saber o porque a carta é tao critica, porque vários escritores retomam ela
em poemas entre outros?!.
grato

Anônimo disse...

boa noite !
gostaria que você me auxiliasse ,pois eu nao sei qual estilo tema e forma composicional da carta de pero vaz de caminha.
desde ja muito grata

Professora Bianca disse...

Anonimo 1,

Acho que vocÊ se confundiu, pois a Carta de Caminha não é um texto de caráter crítico, mas sim edênico. Não há uma visão negativa sobre o Brasil nele, pelo contrário.
Quanto à questão da intertextualidade, é pelo fato de ser marco histórico mesmo. O primeiro registro do que se pensa sobre o Brasil é o de Caminha, é a pedra lapidar da nossa identidade, do que vem a ser essa coisa que é o nosso país e o nosso povo. É interessante notar também que o primeiro texto publicado pela imprensa em terras brasileiras de forma oficial, em 1808 com a vinda da família real, é justamente a Carta.

Professora Bianca disse...

Anonimo 2,

Para eu poder te ajudar você precisa formular a sua pergunta de uma forma mais clara. O estilo a que você se refere é o estilo de época? É o estilo dentro da escola literária? A forma composicional a que você se refere é o gênero textual? Assim que eu souber exatamente o que você quer saber eu te respondo, tá?

andre miolo disse...

Olá Bianca, queria sbare de voc~e se alguma vez já teve a oportunidade de ver uma página ao vivo dessa carta, e se caso tenha, se sabes me dizer de que material ela é feita, de papel, de pele tal qual um pergaminho, enfim, que materialidade é composta a carta de caminha?
Gostei demais do que li e dos comentários.
abraço
andré

Professora Bianca disse...

André,

Eu nunca vi a página ao vivo não, infelizmente. Pelo que eu já vi em fotografia, acredito que tenha sido confeccionada em pergaminho, mas de papel do tipo egípcio. Esse tipo de papel tem fibras mais robustas, mais próprias para agüentar a maresia. Mas não tenho, realmente, conhecimento sobre isso. Se eu encontrar alguma informação mais precisa, deixo resposta aqui, ok?

Anônimo disse...

Biaca, Gostaria que me respondesse, A carta de Caminha é literatura ou não?

Professora Bianca disse...

Anônimo,

Essa pergunta pode parecer muito simples, mas não é. É que para definir se uma coisa é Literatura ou nã, a gente precisa definir o que é Literatura. E esse é um conceito muito sujeito a gostos, épocas, teorias e tal.

Houve uma época, no século XIX, em que a Carta de Caminha é considerada o primeiro texto literário brasileiro. Era um momento em que se definia a nossa nacionalidade e esse primeiro registro de o que vem a ser o Brasil estava ali, no documento do escrivão português. Antes disso, desse período que corresponde à nossa independência política de Portugal e ao Romantismo, a Carta era apenas um documento esquecido em alguma biblioteca real portuguesa. Não tinha valor literário e pouco se atentava para seu valor histórico.

Depois dessa ascensão da Carta ao status de obra literária, no período romântico, a partir do qual ela passa a ser texto de referência sobre o que é o Brasil e o que é ser brasileiro, o tempo foi relativizando o "oba-oba" provocado pelo seu "achamento" nas poeiras das bibliotecas. Percebe-se então que a carta tem um profundo valor histórico, mas se começa a questionar seu valor estético. E é justamente quanto a esse valor estético que se debruça a crítica literária mais recente. O conceito atual do que é Literatura é aquele que considera a plurissignificação do texto literário, ou seja, a capacidade de seu elemento básico, a palavra, atingir efeitos conotativos e de gerar diversas leituras distintas.

Partindo desta perspectiva, sabemos que a carta não tem a primeira característica. Caminha, inclusive, promete que será objetivo em seu texto. Além disso, sabemos que, ele não tem o compromisso em produzir obra de arte. O fato de ele se preocupar em fazer um texto elegante e fluente é gerado pela situação comunicativa e o destinatário primeiro do texto: o rei de Portugal.

Quanto ao segundo critério, aí a coisa complica um pouco mais. Tanto que os nossos escritores modernistas constantemente voltam à carta para parodiá-la ou parafraseá-la. Esse movimento de retorno é imprecindível para que um texto sobreviva ao tempo e seja considerado um clássico, por exemplo.

Ainda assim, eu, particularmente, não considero que ele seja motivo para se alçar a Carta a uma categoria de texto literário. Muitas obras são fundamentais para se entender uma série de assuntos diferentes (O manifesto comunista, por exemplo) e nem por isso podem ser consideradas Literatura. Se a premissa para se considerar um texto literário é a de que ele é uma obra de arte, por usar a linguagem de forma conscientemente artística, definitivamente a Carta de Caminha não é Literatura. E discordar disso não é só discordar de mim, eu, Bianca, a professora que escreve esse blog. É discordar, também, de gente como Ezra Pound, no seu "ABC da literatura". E ponto :)

will disse...

bianca!olha só eu não consigo identificar no texto de caminha a seguinte pergunta de uma professora
"valor literario dos portugueses a partir de 3 trechos escolhidos"
por favor se puder me ajudar agradeço!
beeeeeijo!

Professora Bianca disse...

Will,

Eu não entendi bem a expressão "valor literário" usada na pergunta. O que sua professora trabalhou com vocês e que ela denominou como valor literário? Ela está se referindo ao valor literário da carta ou ao valor da cultura portuguesa? Ou ainda aos valores éticos e morais dos portugueses que a carta representa e expressa?

Will Amaraal disse...

assim bianca eu imagino que seja trechos da carta que demonstre que os portugueses davam um tal valor a literatura, entende?isso eu não consegui encontrar.Poderia me ajudar?

Professora Bianca disse...

Olha... um valor à literatura é esquisito. Mas valor literário à Carta é o que eu já comentei aqui antes. Tem quem dê. Eu sou completamente contra esse raciocínio, mas, enfim.
Se é valor literário à Carta, procure trechos em que se possa encontrar figuras de linguagem (comparação, metáfora, metonímia...). Quem defende que a Carta possui "literariedade" geralmente usa como argumento isso, que há em alguns trechos o uso de figuras de linguagem, como num texto literário. Esse pessoal só esquece que se for assim, texto de propaganda vai ser literário também, mas, enfim... Não é o foco da discussão.
Faz isso. Procure trechos da Carta em que se perceba o uso de figuras de linguagem. Se você perceber uma linguagem conotativa, dá uma destacada e tenta identificar qual a figura que ali está.
Espero que seja uma luz.

Anônimo disse...

BIANCA, ME AJUDA! EU PRECISO SABER SE VOCE CONHECE OU PODE ME PASSAR ALGUM SITE OU FOLHAS MESMO, COM EXERCÍCIOS SOBRE:

- A carta de caminha
- Anchieta- literatura como instrumento para salvaçao
- Auto da Festa de São Lourenço
- Hans Staden
- Maniqueismo
- Intertexturalidade
- Figuras de linguagem
- Trovadorismo
- Humanismo
- Quinhentismo (brasil- carta de caminha)/ Classicismo (europa- camões)

Desculpa por te pedir tanto mas é qu eeu tenho uma prova e nao sei como estudar! AMEII OS SEUS TEXTOS, SÃO EXCELENTES, PARABÉNS!

Professora Bianca disse...

Anônimo,

Não sei se você é o mesmo anônimo que postou outros comentários hoje. Sendo ou não, eu vou ter que repetir o que já postei como resposta em outro comentário. Um site interessante para encontrar questões é o portal de vestibular do UOL. Além dele (e através dele, também) é interessante você baixar provas de vestibulares. Pesquise pelo Google os sites em que se encontram essas provas, você vai ter muitas opções.