4.6.06

A linguagem barroca e a linguagem árcade

Olá gente,

Eu sei que faz muito tempo que não posto nenhuma atualização aqui e peço que me desculpem. Mas vida de professor em fim de semestre é uma loucura muito maior do que a de vocês, podem acreditar.
Atendendo ao pedido que Eduardo me fez, vou deixar hoje um post sobre as diferenças de linguagem do barroco e do arcadismo e as diferentes figuras de linguagem destes dois movimentos.
Uma coisa importante acerca disto e em relação à qual todos devem ficar atentos é a seguinte: não é porque a linguagem árcade é mais simples que a barroca que não há figura de linguagens nela. O que ocorre é uma exploração muito menos exagerada, mais "clean", como costumamos dizer. Os árcades são, de certa forma, minimalistas: para eles menos é mais. Mas isso não significa dizer que não há figuras, certo?
Entendido esse ponto, vamos em frente...
Como vocês devem lembrar, eu ressaltei nas aulas que o Barroco tem como figuras de linguagem principais a antítese, o paradoxo, a metonímia, a metáfora e a gradação. Para quem está com a memória mais curta, vamos lembrar em que consistem estes jogos de palavra.

A metáfora é uma comparação implícita entre dois termos. Implícita porque não faz uso dos elementos (conjunções e expressões comparativas - como tal qual, como, que nem, tão... quanto..., tanto... quanto...) que normalmente relacionam os itens comparados em um discurso. Assim enquanto na frase "Saudade amarga que nem jiló" (para lembrar um pouco de Luiz Gonzaga nesse período junino) temos comparação (pois foi usado um termo que explicita a relação dos termos), na frase "Saudade é arrumar o quarto do filho morto" (citando agora o grande Chico Buarque) temos metáfora.

Muita gente confunde a metonímia com a metáfora, mas ambas são processos bastante diversos de inovação nos sentidos das palavras . Na metonímia não existe comparação entre termos, mas usamos um em substituição ao outro. Isto fica mais claro quando lembramos daquele texto de Gregório de Matos trabalhado em sala de aula e que está no material de vocês, "Buscando a Cristo". Nele, em lugar de se referir à imagem de Jesus Crucificado como um todo, Gregório substitui o todo pelas partes: os braços, os olhos...
Ainda com dúvidas? Então observem esses usos cotidianos de metonímia:
"Sujou? Usa Dragão" -> o nome da marca substitui o do produto, água sanitária
"Mas ele só tomou um copo!" -> o nome do objeto que contém o líquido substitui o conteúdo o qual foi o elemento realmente ingerido

A gradação, por sua vez, é um encadeamento de palavras que encerram a mesma idéia geral, mas cuja ordenação constrói um reforço ou uma suavização desta idéia. Um exemplo é um verso de uma música da Legião Urbana feita para Cássia Eller "Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher". Observe que as palavras fera e bicho são sinônimos, pois ambas podem designar os mesmos animais. Porém há uma idéia maior de selvageria na palavra fera. Idéia que perde a força quando se chega ao elemento seguinte, bicho. Continuando a gradação, o autor - Renato Russo, no caso - estabelece outra relação de sinonímia: anjo e mulher. Em ambos há uma idéia de sublime (principalmente se considerarmos o restante da música, em que se fala da gestação de uma criança: "Do ventre nasceum novo coração" está há apenas três versos de distância). A palavra anjo, porém, encerra a idéia de divindade com mais força do que a palavra mulher. Nas duas gradações há uma tendência para se reforçar a idéia da humanidade do eu-lírico, que, embora seja ao mesmo tempo todos esses elementos, vai minimizando o exagero do animalismo e da divindade, se situando num meio termo.

Viajei demais? Então vamos para o básico: se numa conversa entre dois amigos um diz que "A viagem foi muito boa, arretada, irada" a idéia de qualidade, iniciada no adjetivo boa, vai ganhando reforço gradativo até chegar na força máxima: irada. Se a ordem dos adjetivos for contrária, retira-se a força da idéia, graduando-a para baixo.

Estas três figuras são mais típicas do Barroco, mas podem, sem problemas, aparecer também em textos árcades, como neste terceto de Bocage, poeta árcade português
"Ah! Não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão, e a morte"

A antítese e o paradoxo, por sua vez, raramente vão aparecer em textos Árcades. Lembrem-se de que o Arcadismo já conseguiu fazer a ordenação do caos Barroco e, por isso, não se fascina tanto com as dualidades da vida e do ser humano. E, em tempo, para refrescar: na antítese, as idéias contrárias fazem parte de seres ou momentos diferentes. No paradoxo os opostos convivem ao mesmo momento no mesmo ser. As ações dormir e acordar são antitéticas, ou seja, formam uma antítese. Mas a ação de dormir acordado é paradoxal, pois reúne os dois opostos ao mesmo tempo.

Aí vocês me perguntam: Existe alguma figura que seja mais usada no Arcadismo? Sim, senhoras e senhores. A prosopopéia. (Momento para vocês perguntare: É o quê?) Prosopopéia ou personificação. É a figura que faz com que seres inanimados, animais, elementos da natureza executem ações ou manifestem sentimentos humanos. Como o Arcadismo dá muita importância ao cenário proporcionado pela natureza, ele vai explorar muito essa figura em versos como:

"Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura"

"Enquanto pasta alegre o manso gado,
minha bela Marília, nos sentemos
à sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
na regular beleza,
que em tudo quanto vive nos descobre
a sábia Natureza."

Penhas é uma palavra antiga para pedras. Ou seja, na primeira estrofe (de Cláudio Manoel da Costa), Glauceste Satúrnio - pesudônimo de C. Manoel da Costa - alerta que as pedras devem temer (uma ação tipicamente humana), pois o amor é mais avassalador onde encontra mais resitência.
Na segunda estrofe, de Gonzaga, o gado é alegre (emoção humana) e a Natureza é sábia (qualidade humana).

Bem, quanto a figuras é isso. Há um predomínio maior do uso de metáforas, metonímias e gradações no Barroco, mas elas também podem estar presentes no Arcadismo. Já o paradoxo e a antítese raramente vão aparecer neste movimento, sendo mais típicas do sesicentismo.

Espero que as dúvidas tenham sido esclarecidas. Se não, terça-feira eu estou na escola nos dois primeiros horários, então, podem me procurar.

Um beijo a todos, bom início de semana e boas provas!

Um comentário:

Eduardo - 1º A disse...

;D Valeu, Bianca!
Ajudou bastante..
Tava em dúvida em muitas delas
Agora é 10 xD