23.5.07

Identidade nacional - A crítica social no Barroco

O Barroco é o principal movimento artístico do século XVII. É considerado a arte da Contra-Reforma, pois sua visão de mundo está profundamente ligada à angústia existencial do homem cristão. Esse caráter se manifesta de maneira mais clara na poesia lírica de Gregório de Matos, que será estudada no segundo semestre. Por agora, como nosso recorte temático se concentra nas visões da literatura colonial e romântica a respeito da identidade nacional brasileira, vamos nos afastar desse caráter mais próprio do Barroco para estudar um elemento particular da produção literária de Gregório: a poesia satírica.

Os poemas satíricos remontam desde o início da literatura. A arte sempre serviu para, não só exaltar sentimentos pessoais, mas também denunciar a realidade à sua volta. E é exatamente isso que a sátira procura fazer. Às vezes ácida, às vezes bem-humorada, ela expressa a desaprovação que o artista tem de um indivíduo, um comportamento ou uma situação em geral. Está presente nas piadas, nas charges, nas esquetes humorísticas de televisão.

No caso da sátira de Gregório de Matos, há uma relação direta com as cantigas de escárnio e de maldizer medievais. O movimento Barroco, de uma maneira geral, resgata uma visão de mundo teocêntrica e medieval, e Gregório de Matos não se afasta dessa tendência, nem na produção lírica nem na satírica. Há, porém, uma liberdade formal muito maior em seus textos satíricos, visto que são considerados mais populares, menos sérios. O que não é, necessariamente, se afastar da tradição medieval: essas cantigas de escárnio e de maldizer não seguiam modelos rígidos, justamente por serem produzidas por artistas populares, de rua. Característica que Gregório de Matos manteve não só na forma mais livre de seus textos como na perfomance que fazia para que viessem a público - ele os declamava em praça pública, nas ruas de Salvador.

Não vou me alongar mais. Deixo para vocês os slides que foram vistos em sala de aula. Na dúvida, gritem!


Contexto histórico em Portugal:

•União Ibérica
•Sebastianismo
•Absolutismo
•Estagnação de Portugal
•Acirramento da Contra-Reforma

Contexto histórico no Brasil:

•Comércio extensivo da cana-de-açúcar
•Exploração da colônia
•Formação das primeiras cidades
•Invasões holandesas no nordeste

Pe. Antônio Vieira (1608-1697)


•Português, veio para o Brasil com 7 anos de idade.
•Padre jesuíta, ordem na qual ingressou aos 15 anos.
•Conselheiro de D. João IV e mediador político e representante econômico de Portugal
•Sua produção se compõe, principalmente de cartas e sermões, sendo de maior destaque estes últimos.
•Criticou a presença de holandeses em Pernambuco (por serem invasores e calvinistas), defendeu os índios e os judeus, o que o indispôs com muitos, principalmente com os pequenos comerciantes, os colonos que escravizavam índios e até com a Inquisição.
•Foi condenado à prisão por dois anos pelo Tribunal da Santa Inquisição.
•“Vieira era, então, o homem mais odiado de Portugal. E quanto mais era odiado pela Inquisição, mais a desafiava” (Ana Maria Miranda, no romance Boca do Inferno ).

Trecho do Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640)

Finjamos pois — o que até fingido e imaginado faz horror, finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará — como em outras ocasiões não perdoou — a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Nínive. (...)
Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão esta custódia em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo, e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem as imagens tremendas de Cristo crucificado, nem as da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho.
No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo *. Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois, se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? (...)


Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno (1633-1696)

•Baiano, estudou no Colégio dos Jesuítas em Salvador e depois cursou Direito em Coimbra .
•Seus poemas satíricos, cujo alvo principal eram o governador Antônio de Souza Menezes, o Braço de Prata, renderam-lhe um período de degredo em Angola, do qual só retornou sob a condição de não produzir mais sátiras e não regressar a Salvador.
•Sua sátira o aproxima dos poetas populares da Idade Média.
•Era irreverente como pessoa e como artista: chocava-se pessoalmente com a falsa moral baiana e usava em suas sátiras palavras de baixo calão; tinha comportamento indecoroso e em suas denúncias não se curvava ao poder de autoridades políticas ou religiosas.
•Na sátira não poupou palavrões e foi além do mero português de baixo calão: inaugurou o uso de uma língua diversificada, cheia de termos indígenas e africanos, gírias e expressões locais
•Temas principais estão a crítica ao governador, ao clero, aos comerciantes, à sociedade e à cidade.


Os poemas de Gregório de Matos não foram intitulados por ele. As glosas (referências de tema que passam a agir como título de um texto) que receberam foram dadas pelos estudiosos da obra do Boca do Inferno a partir do século XIX. Não deixarei as glosas dos textos, alguns dos poemas que vimos em sala. Para mais textos, vocês podem consultar o site Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia). Lá é só buscar no menu da letra G o nome do autor. Muita coisa que não pôde ser vista em sala, por n motivos está lá!


Senhor Antão de Souza Meneses,
Quem sobe o alto lugar, que não merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.

A fortunilha autora de entremezes
Transpõe em burro o Herói, que indigno cresce:
Desanda a roda, e logo o homem desce,
Que discreta a fortuna em seus revezes.

Homem (sei eu) que foi Vossenhoria,
Quando pisava da fortuna a Roda,
Burro foi ao subir tão alto clima.

Pois vá descendo do alto, onde jazia,
Verá quanto melhor se lhe acomoda
Ser homem embaixo, do que burro em cima.



A cada canto um grande conselheiro,
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um freqüentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.

20.5.07

Auto da Festa de São Lourenço

Quando eu prometo, eu cumpro. E aqui aos 45 do segundo tempo (ou melhor, do domingo, quinze minutinhos para daqui a pouco ser amanhã) eu deixo aqui as respostas da ficha sobre o auto de Anchieta que estudamos na última segunda-feira. Até daqui a algumas horas!

Compreendendo a estrutura do texto

Questão 1 - Logicamente nem tudo o que foi escrito por Anchieta na peça será dito pelos atores. Mesmo uma leitura feita sem tanta atenção reconhece isso. Os trecho que não pertencem às falas dos personagens são as rubricas da peça. São instruções sobre o que se deve fazer em que momento, como devem ser os figurinos, o cenário, a iluminação. Como o teatro de Anchieta é rústico e feito em condições precárias, nas rubricas do trecho que lemos estão apenas indicações sobre o assunto da peça e sobre as ações dos atores. Em peças mais sofisticadas, o autor indica o que imaginou para a sonoplastia, maquiagem, efeitos especiais, etc.
A diferença que há entre a rubrica e as falas e a forma como são grafadas no texto. A rubrica precisa ser destacada para que os integrantes da peça não tenham dificuldade, na leitura, de separá-las do texto que será interpretado. Freqüentemente a rubrica será escrita entre parênteses e em itálico, como aconteceu na ficha de vocês, mas pode vir destacada de outras maneiras: uma fonte diferente, um parágrafo destacado (se ela for muito longa).

Questão 2 - A obra simboliza o conflito entre a moral cristã e a moral indígena e representa, através do personagem do anjo e da ação dos santos, a ação da moral cristã sobre o indígena através da pregação dos padres. Para Anchieta o essencial é incutir no índio a idéia de que aquilo que ele, Anchieta, em sua moral cristã, é pecado trará ao índio conseqüências negativas, enquanto agir segundo o que acredita o homem branco trará conseqüências positivas.

Questão 3 - O teatro de Anchieta é muito simples e precisa ser simples dadas as condições de sua produção. Por isso mesmo os tipos humanos são clicherizados, facilmente reconhecíveis. Dividindo-se em protagonistas (mocinhos) e antagonistas (bandidos) os personagens vivem seus conflitos, com a vitória do bem sobre o mal no desfecho da peça. Do lado dos mocinhos (protagonistas) estão os anjos e os santos católicos, neste trecho da peça. Do lado dos bandidos (antagonistas), os demônios. No restante da peça há outros personagens e todos se dividirão nestes dois pólos.

Questão 4 - Como o intuito de Anchieta é catequisar o indígena, o desfecho da peça visa alcançar este intento. Daí a necessidade de demonstrar a força dos elementos cristãos sobre os pagãos. Ser vitorioso, na cultura indígena, é ser honrado, valoroso. Assim Anchieta criava no índio a expectativa de ser vencedor como os personagens eram, o que facilitava a inculcação dos valores católicos.

Questão 5 - O efeito pretendido por Anchieta era a conversão indígena. Portanto, o provável é que após a encenação os índios que dela participaram ou a ela assistiram pedissem para serem batizados e convertidos, ou, no mínimo, se mostrassem mais receptivos à doutrina católica.

13.5.07

Indianismo Romântico - Respostas da ficha 1

Olá pessoas!
Demora um pouquinho, mas eu venho aqui. Sabem como é: com vocês 870 alunos, algumas provas e trabalhinhos simpáticos (não é Yuri? :P) e uma pobre professora que passou a semana doente. (Alguém quer um restinho de gripe aí?)
Demoro, mas venho. Divirtam-se com a análise dos textos e a reposta da ficha 1. Esperem mais um pouquinho que eu posto um comentário desse grupo de escritores e as respostas da ficha 1.
O primeiro texto de Gonçalves Dias, Deprecação, que significa ato de implorar, nos mostra um eu lírico que é um índio e que se dirige ao deus indígena Tupã (questão 1). Esse índio implora para que Tupã descubra seus olhos do velame (véu) de penas que o impede de ver o que acontece com o povo indígena, dizimado por invasores que possuem armas de fogo (raios) e, por isso, o índio interpreta que são alguma forma de vingança de Tupã, já que ele é o deus dos raios (e trovões) contra seu povo (questão 3, 5, 7). Por isso ele implora que Tupã se apiede de seu povo e os ajude a se defender dos europeus, dando-lhes o poder de combater de combatê-los, ressuscitando o valor indígena (questão 10).
A mudança a que se refere o texto é a transição de um estado de paz inicial, em que os índios se encontrariam em harmonia com a natureza, para um estado de guerra e opressão que se inicia com a chegada dos europeus. Essa, pelo menos, é a visão romântica da vida indígena num momento em que este é o símbolo de pureza e civilidade da pátria. Note que é um desenvolvimento da teoria do bom selvagem, criada no século anterior por Rousseau e já adotada pelos árcades (questão 4).
O eu lírico relembra o passado para demonstrar que seu povo é destemido e enfrentaria de igual para igual os invasores, não fosse o fato de estes manejarem o raio cruento e os índios não terem esse instrumento disponível para si (questão 8).

Desfazendo o hipérbato, temos: E teus filhos jazem clamando vingança da perda infeliz dos bens que lhe deste e "O Piaga nos disse que seria breve a cruel punição que nos infliges" (questão 9)

O segundo texto de Gonçalves Dias, I-Juca Pirama, mostra-nos um índio que é um cavaleiro medieval típico: ele é bravo e forte (questão 11a), foge com o pai cego para protegê-lo (questão 11c) e para cuidar dele pede para viver (questão12a), o que seria uma desonra para um grande guerreiro, principalmente nas condições em que sua tribo se encontra: foi dizimada e sobraram poucos guerreiros timbiras (questão 11 b). Para isso ele pede "Não vil, não ignavo, / Mas forte, mas bravo, / Serei vosso escravo: / Aqui virei ter."
Listando as características típicas de cavaleiro medieval, podemos apontar que ele é um guerreiro valente que possui um código de honra que não permitiria descumprir a palavra dada, que o obriga a cuidar dos fracos. Esse cumprimento da palavra oferecida, e o fato de não mentir são elementos típicos do indivíduo naturalmente bom, que ainda não foi corrompido pela civilização (questão 13 a e b, respectivamente).
O texto de Manuel Bandeira trata-se de uma paródia, pois os valores foram invertidos: o eu lírico não é bravo, não é forte e preza tanto a vida que não se proporia a morrer. As conjunções/locuções conjuntivas que podem ser usadas no lugar de "Bem que" são "Ainda que", "Embora", "Apesar de".
Quanto à questão 16,o gabarito é letra D.
Bom restinho de domingo e até amanhã!