25.2.07

A Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil

Hello, pessoas!

Trabalhando já no contexto histórico do século XVI? Se tiverem dúvidas, procurem Gerardo, de História! Ele já disse que orienta vocês sim!

No nosso trabalho com Quinhentismo, já lemos excertos de trechos distintos de obras da literatura de informação, aquela que tem como objetivo reportar à coroa portuguesa e ao povo europeu em geral como é o novo mundo, sua terra, sua natureza e seu povo. Vimos, também, que, além deste tipo de literatura, há um outro, que estudaremos mais à frente: a literatura de catequese. De antemão, já expliquei a vocês que o intuito desta literatura de catequese é promover a conversão dos índios ao catolicismo. Portanto, ainda não estamos no campo da literatura propriamente dita, pois, ainda que os autores da literatura de catequese utilizem poemas, peças de teatro e canções, o objetivo utilitário destas produções (converter os gentios) é que está em primeiro lugar.

Dos textos da literatura de informação do quinhentismo brasileiro, o mais importante, sem dúvida, é a Carta de Caminha. Como documento histórico, ela faz o papel de "certidão de nascimento" do nosso país, e de nossa identidade enquanto nação também. Identidade que vai sendo moldada, aos poucos, a partir do olhar estrangeiro do homem europeu sobre nossa terra, e que, ao longo do processo de colonização, vai se alterando, em decorrência da miscigenação étnica, do sincretismo cultural e da firmação de uma população que aos poucos se independentiza da Metrópole. Todo esse processo culmina, politicamente, na proclamação da independência brasileira. Mas não é uma processo que termina na Independência, em 1822. Afinal, ainda com ela, continuamos economicamente dependentes (como ainda o somos) de países desenvolvidos e continuamos absorvendo uma cultura estrangeira que vai sendo misturada com a nossa. Ser brasileiro, talvez, no fim das contas, se defina justamente no "ser antropófago" dos nossos índios: alimentarmo-nos do que nos faz mais fortes, e desprezar o resto. Oswald de Andrade, no Modernismo, e Caetano Veloso, na Tropicália, que o digam! Pena que estes movimentos são assuntos que vocês só estudarão no terceiro ano!

A Carta, como podemos perceber na colagem que fiz dela (como eu avisei, seria impossível lermos as 13 páginas em aula - o que não impede vocês de buscar o texto integral: ele já foi publicado em livro e existem muitos sites aqui na web que o disponibilizam) manifesta os dois interesses do colonizador em nossa terra - a conquista material e a espiritual - e é um texto de motivo edênico. O interesse pela lucratividade que se poderia obter com a exploração da nova terra se manifesta na associação do gesto do indígena que aponta para elementos do navio e depois para a terra como um sinal de que lá se encontraria a matéria prima daqueles objetos: o ouro e a prata. Já o interesse pela conquista espiritual dos índios - através de sua catequese - está bem demarcado na declaração de Caminha, ao fim do texto "o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente". Nessa afirmação, Caminha demarca que, dada a ausência de sinais da possibilidade de ouro e prata no Brasil, a atividade que dará mais lucro certo a Portugal é a conquista espiritual. Lembrem que nesta época, dados os eventos da Contra-Reforma, Portugal buscava o prestígio junto à Igreja e ao Papa.

O motivo edênico, por sua vez, aflora na apresentação do esplendor da natureza brasileira e da inocência dos gentios. O que mais se assemelharia ao Éden do que gente bonita, "de bons rostos e bons narizes" que tem total inocência - aos olhos da moral cristã - acerca da nudez do corpo e que habita uma região, provavelmente uma ilha, em que abundam arvoredos, terra chã (plana, chão) e praia formosa? Infelizmente a moral católica do século XVI e seu radicalismo acerca de certo, errado, pecado e salvação e a conquista material, com a exploração do pau-brasil, da cana-de-açúcar e do ouro vão "contaminar" este paraíso inicial com tudo aquilo que a Europa tinha de negativo: repressão, ganância e luta pelo poder.

Feitas estas considerações, vamos às respostas da ficha.

A questão 1 lembra o estranhamento do português diante dos índios e pergunta o que chama a atenção em relação às índias. Os trechos em que Caminha tratava dessa visão sobre as índias foram suprimidos, e é preciso inferir a respeito dessa impressão, a partir do que foi apresentado como impressão sobre os índios. Ora, Caminha ressalta em sua descrição o exotismo dos índios em seu visual e a inocência com que exibiam "suas vergonhas". Considerando-se isso, podemos afirmar que a nudez inocente das índias é algo tão exótico para o conquistador português que certamente provocou o estranhamento.

A questão 2 destaca uma passagem da carta em que Caminha relata os sentimentos provocados pela visão das índias nuas. Nesse trecho, o autor vale-se da dupla atribuição de sentidos à palavra "vergonha". A "vergonha" dos índios e índias são seus órgãos sexuais. A vergonha do conquistador é o constrangimento diante da nudez alheia. Se lembrarmos do excertode Eduardo Bueno, "Vida a bordo", do livro Brasil - Terra à vista!, até o banho era considerado nocivo à saúde, mito criado para reprimir a lascívia que a visão do corpo poderia gerar no bom cristão. Portanto, a formação moral e religiosa do conquistador associa sexo e nudez a pecado, e se confronta com a moral indígena, que encara estes elementos com completa naturalidade.

A questão 3 trata da comunicação entre portugueses e índios. Na frota de Cabral havia três intérpretes, um para línguas africanas (e que foi o primeiro negro a pisar no Brasil), um para o idioma hindu (afinal a intenção era realmente ir para a Índia - o Brasil foi um mero pit-stop) e um para outras línguas asiáticas, se não estou enganada.
Apesar de todo este aparato lingüístico, porém, não foi possível haver comunicação entre portugueses e os índios da costa brasileira, que usavam uma língua completamente desconhecida. (Uma não, várias! Havia milhares de tribos distintas e embora muitas compartilhassem de uma mesma língua geral, havia milhares de idiomas diferentes também.)
Como, porém, contar ao rei que com todo o aparato levado, a frota de Cabral foi incapaz de se comunicar com gente tão primitiva? A solução de Caminha foi culpar o mar, que quebrava na costa e fazia barulho. Assim fica adiado o problema e a tripulação não recebe o rótulo de incompetente pelo receptor do texto.
Isto foi no episódio de Nicolau Coelho, sendo as considerações anteriores, portanto, as respostas para os itens A e B da questão 3. Mas antes de prosseguirmos com a questão 3, deixem-me fazer mais uma observação. Posteriormente, quando os dois índios jovens são levados a bordo, caminha lança uma interpretação para os gestos de aponte, demonstrando ao rei que entende o que o silvícola quer dizer, mesmo sem entender o que ele fala. Ou seja, mais uma vez ele contorna o problema, mostrando (ou pelo menos tentando) que a culpa do não-entendimento anterior realmente fora do mar.

A questão 4 trata do primeiro contato dos índios com Cabral (até então havia se limitado a Nicolau Coelho e aos marujos). Relendo o trecho que trata disto, podemos perceber que Cabral procurou assinalar seu posto de comando com elementos culturais que na Europa seriam facilmente entedidos: estava sentado, bem vestido, e com um estrado de alcatifa onde repousava os pés. Na Europa estes elementos dão destaque à posição superior de quem conta com eles. Mas para os índios brasileiros, não significavam nada. Tanto que eles ignoram o capitão e não o cumprimentam. As disparidades das duas culturas, portuguesa e gentílica são fortemente assinaladas nessa passagem.

A questão 5, por fim, trata dos interesses que já foram discutidos no início deste post. Os portugueses, de início buscavam metais preciosos e como não podem confirmar sua existência, há a sugestão da conquista espiritual dos indígenas, através da catequese.

Bom, that's all folks!
Bom domingo e até amanhã!

17.2.07

Exercícios com os textos do século XVI

Olá, queridos!

Eu sei, eu demorei dessa vez. Peço perdão e deixo uma justificativa: na soma de três escolas, são 900 e alguns vocês e eu administrando esse pelotão. Por isso, pode demorar um pouquinho chegar a atualização daqui, mas lembrem-se do ditado: Tarda, mas não falha! E eis me aqui, em pleno carnaval, deixando o post com as considerações sobre os textos do século XVI que trabalhamos e a correção dos exercícios sobre eles.

Antes de mais nada, para quem não registrou os títulos que foram cortados, aqui vai:
Texto 1: História da Província de Santa Cruz
Texto 2: Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil
Texto 4: A verdadeira história dos selvagens nus e ferozes devoradores de homens

Como vimos em sala, os objetivos, os emissores e os receptores dos quatro textos, de maneira geral, são os mesmos. Todos visam informar alguém (o povo em geral, da Europa ou de Portugal em específico - apenas o texto 2 fica mais restrito, pois dirige-se à coroa) a respeito da nova terra, seus habitantes e a cultura deles. Os excertos (trechos) que lemos focaram-se no índio, mas as obras em que se inserem e os demais textos da mesma época também abrangeram a natureza, a fauna, a flora e o clima brasileiros.

Esta constatação nos permite responder à questão 1 da ficha: os elementos que se mostram em comum nos textos é o objetivo, a função social exercida por quem escreve (mesmo o Pe. Manuel da Nóbrega e Hans Staden, que não estiveram aqui com o propósito de atuarem como informantes, acabam cumprindo este papel ao produzirem os textos que lemos), o tema e o público alvo.


A informação veiculada pelos textos baseia-se, principalmente, na descrição física e cultural dos gentios. Quem se difere um pouquinho, neste aspecto, é o texto de Hans Staden, de caráter narrativo. Notem, entretanto, que junto à narração (o que aconteceu) existe uma descrição (como aconteceu). Staden assinala como os gentios são perigosos através de uma descrição de comportamento. Portanto, podemos responder à questão 2 assinalando que a para cumprir o propósito informativo da produção escrita - e assim saciar a curiosidade européia sobre o Novo Mundo - , os cronistas (historiadores do tempo presente) e os viajantes concentravam-se na descrição da terra e de sua gente, seja através da caracterização (como nos textos 1 e 2) seja através do relato de costumes (texto 3) ou de eventos específicos (texto 4).

O mote da descrição (o índio em seus aspectos físicos e culturais) aproxima os quatro textos, de origens e posições ideológicas distintas. Em todos eles, também, prevalece um ponto de vista estrangeiro intrigado com o exotismo do indígena. Esta constatação responde à questão 3. O ponto de vista ideológico singular da Carta de Caminha, destarte, destaca este texto dos demais. Caminha considera os índios bonitos (bons rostos e bons narizes) e não apresenta reprovação aos costumes indígenas, como o fez explicitamente Gândavo e Hans Staden (como comprova o título da obra), e implicitamente Pe. Manuel da Nóbrega. Este implícito está tanto na seleção do ritual antropofágico do indígena como assunto como na relação de Nóbrega com este aspecto cultural: para um padre católico contemporâneo à Contra-Reforma Católica uma atitude como esta representa, no mínimo, um estado completo de incivilidade, o qual, provavelmente, conecta-se a tentações demoníacas e perdição da alma. Tais comparações levam à Carta de Caminha como resposta para a questão 4.

A questão 5, pode ser solucionada de duas formas. Podemos considerar que no nível explícito, o objetivo dos textos realmente não se altera: informar a população européia sobre o Novo Mundo. É uma resposta precisa e aceitável como plenamente correta, inclusive em questão de prova (bastanto, apenas, a apresentação da justificativa para a conquista da totalidade de pontos a ela reservada).

Todavia, podemos também lançar um olhar mais profundo sobre a ideologia dos textos e seus implícitos. O que desejam os autores ao selecionar as informações que apresentaram em seus textos? Quem informa alguém, informa por uma razão específica, que raramente é altruísta. Gândavo, por exemplo, em seu texto reduziu os índios a animais, com expressões como machos e fêmeas. Além disso infere que a ausência de F, L e R significa a ausência de Fé, Lei e Rei naquela cultura. Como interpretaria isso Portugal? O que se deve fazer com um povo que não tem Fé, Lei e Rei, segundo a interpretação do homem europeu no século XVI? Que ação é impulsionada por essa informação? A dominação parece ser a resposta mais acertada, não é? Portanto, podemos considerar que Gândavo tem como objetivo, também, estimular o povo português a tomar para si a terra e impor sua Fé, sua Lei e o seu Rei àqueles que não têm.

Esta intenção colonizadora e dominadora inexiste, entretanto, no texto de Caminha, pelo menos no excerto que lemos. Aparentemente, Caminha se manteve mais neutro em sua posição ideológica, e a informação, no excerto, realmente parece servir apenas para satisfazer a curiosidade real sobre o Brasil.

E quanto a Nóbrega e Staden? Os excertos parecem intentar demostrar como é perigosa a nova terra e seus habitantes. Provavelmente depois da leitura destes textos, o homem do século XVI não esperaria muito para reagir de forma violenta se encontrasse com indígenas, como realmente acabou ocorrendo - e resultando em extermínio.

Uma ou outra forma de se responder à questão 5 é satisfatória para nosso início de trabalho. Mas assinalo que esta segunda demonstra uma capacidade de leitura muito mais atenta e aprofundada dos trechos. Gostaria muito que, ao fim de nosso ano letivo, boa parte de vocês tivessem este tipo de análise crítica. Se Deus quiser, chegaremos lá.

Restou-nos a questão 6. Como já assinalamos anteriormente, o título da obra de Hans Staden apresenta um ponto de vista negativo sobre os índios brasileiros: selvagens demonstra um julgamento de valor que parte do ponto de vista do homem europeu. Além disso, as características nus, ferozes e devoradores de homens representam pecado, violência e pecado/ausência de pudor, respectivamente. Isto responde ao item A.

Vamos ao item B: "descobrir" e "achar" denominam ações diferentes? Pensemos: Isaac Newton "descobriu a lei da atração dos corpos" ou "achou a lei"? Em que consiste uma ação e outra? Ora, nós achamos aquilo cuja existência se conhecia, mas que tinha um paradeiro ignorado ou esquecido. Achamos uma nota de 10 reais no bolso da calça guardada. Um dia aquela nota era conhecida e ali foi esquecida. Achamos um livro que guardáramos em algum lugar, mas que foi dali retirado por outra pessoa. Se Newton houvesse "achado" a lei de atração dos corpos, ela já seria conhecida antes. Como essa lei não era conhecida, trata-se de uma "descoberta". Por isso, dizer que os portugueses "acharam" o Brasil associa-se à idéia de que já se conhecia a existência do Brasil, mas que sua localização não era precisa. Descobrir o Brasil, por outro lado, é encontrar uma terra completamente desconhecida.

Para concluirmos, observem o item C: que título se conecta a uma série de eventos e a uma obra longa. A palavra História do título dos textos de Gândavo e de Staden salta aos nossos olhos neste momento. Porém, apenas o título de Gândavo tem esta conotação, pois é a história de toda uma terra, e não apenas de um povo. Presume-se que na província de Santa Cruz existam muitos povos, além de componentes naturais que serão abordados em um compêndio sobre sua história. Já "os selvagens nus e ferozes devoradores de homens" delimitam a concentração do texto de Hans Staden apenas a este povo. Por isso, a resposta é o título do texto 1.

Terminamos desta vez por aqui! Aproveitem MUITO o carnaval!!
Beijos e até a próxima!

5.2.07

Exercícios de Interpretação do texto Sangue na Areia

Sejam bem-vindos! Este foi um espaço que deu muito certo em 2006 e espero que seja assim também em 2007. Aqui eu deixarei as resoluções de todos os nossos exercícios, textos de apoio e e complementação, material de revisão dos assunto e vocês podem usar os comentários para tirar dúvidas. Assim que for possível, geralmente uma vez por semana, eu postarei aqui e responderei aos comentários.

Antes das respostas das questões em si, um comentário que eu fiz na maioria das turmas e que alguém pode não ter entendido (e quem faltou não terá a oportunidade de ter contato com esses conceitos a não ser através daqui): todo texto, mesmo que seja um poema sobre o amor ou uma redação científica, tem ideologia. Ter ideologia significa ter um posicionamento político/social. Um poema sobre o amor tem esse posicionamento na medida em que ao expressar o amor, seu autor expressa, mesmo que de maneira muito sutil, sua perspectiva sobre os papéis sociais de homens e mulheres e sobre os relacionamentos humanos. Um texto científico, mesmo que pretenda ser imparcial, já tem um posicionamento ideológico desde o momento em que escolhe seu tema (uma escolha significa dar importância a um elemento em detrimento de outros). Além disso, todo texto de caráter científico segue uma teoria, um entendimento sobre o seu assunto. Caso seu objetivo seja confrontar teorias porque não escolheu ainda uma especificamente, esse também é um posicionamento. Até a imparcialidade é ideológica, pois é a posição de onde se busca olhar o mundo com isenção de julgamento (o que é impossível, no fim das contas, pois sempre há algo de subjetivo em nossas escolhas).

Se todo texto tem uma ideologia, ele também tem uma tese, ou seja, uma opinião. Mesmo que seu objetivo não seja comprovar para as outras pessoas de que essa tese é a mais correta sobre o tema, todo autor tem uma opinião sobre aquilo que ele escreve ou fala. O que ele não precisa apresentar, necessariamente, são os argumentos. Argumentos são as idéias que usamos para mostrar ao receptor do nosso texto de que a nossa tese é factível, possível, e que ele deveria concordar conosco. São as idéias que buscam um convencimento do leitor a respeito da tese.

Sabendo disso, podemos entender melhor o que foi pedido na primeira questão do exercício. O enunciado já nos apresentou a tese defendida em Sangue na areia: o filme turistas não prejudica a imagem do Brasil no exterior. Para conseguir comprovar isto ao leitor, Osmar Freitas Jr fez uso de duas idéias principais e de algumas secundárias que as desenvolveram. A idéia principal que ganhou mais força é a de que Turistas é um filme ruim e clicherizado, que foi desprezado pela crítica, teve pouca lucratividade e possivelmente será logo esquecido.
Junto a essa idéia, o jornalista expôs outra, anteriormente no texto, e que tem como finalidade desacreditar os autores do filme. Com a apresentação dos dados estatísticos a respeito do desconhecimento dos americanos sobre seu próprio país, foi posta em cheque a capacidade dos americanos (e o filme é americano) de conhecerem a realidade de outros países. Com esta idéia, o autor desacredita a competência do autor do filme de apresentar o Brasil como ele é. A obra acaba sendo um filme feito por alguém que não conhece o país e por isso aquilo que se diz não tem credibilidade.

Alguns alunos perguntaram-me se o fato de o Brasil, segundo o texto, ter uma imagem negativa no estrangeiro anterior ao filme (e nisso chegamos na terceira questão) não poderia ser considerado um argumento favorável à sua idéia. E a resposta é que realmente não podemos deixar de perceber nesse dado um elemento que põe em cheque o impacto negativo do filme, visto que antes dele já havia essa imagem de miséria, violência e sexo fácil. A comprovação de que a imagem é anterior a Turistas é a convenção feita em 2004 para tentar recuperar a imagem do Brasil.

Por fim, o outro elemento que exporta a imagem do Brasil para o exterior mencionado por Osmar Freitas Jr foram as notícias ruins veiculadas pela mídia. Alguém me perguntou, creio que no 1ºA, se a Embratur não faria isso também. Não deixa de ser função da Embratur, mas o texto não mencionou este papel, então melhor nos atermos às notícias, ok?

Espero que as possíveis dúvidas tenham sido resolvidas!
Grande abraço e até a próxima!

9.11.06

Gabarito da prova e comentários

Como eu prometi, deixo aqui o gabarito da prova do dia 08/11.

A primeira questão, discursiva, pediu que vocês detectassem qual é a característica do Romantismo de que fala aquele trecho do prefácio do livro de Gonçalves Dias. Observem que eu não pedi características desse autor, mas sim a que surge nesse trecho específico. Um olhar mais atento conseguiria encontrar na passagem "não têm a uniformidade nas estrofes porque menosprezo regras de mera convenção" o desprezo romântico aos moldes clássicos. Isso pode ser expresso nas repostas com "liberdade de expressão artística", "iconoclastia", "desprezo às convenções artísticas", "desprezo aos modelos clássicos". Não há nenhuma outra característica além dessa no texto apresentado.

A segunda questão apresentou quatro trechos de poemas. O primeiro pertence a "I-Juca Pirama", pertencendo, portanto, à primeira geração. Isso poderia ser detectado nas referências "arco", "tapuia" e "tapir", de referência ao universo indígena. Portanto, as alternativas A e D ficam excluídas da lista de possibilidades.
O segundo trecho pertence ao poema "Se eu morresse amanhã", de Álvares de Azevedo, e a repetição do refrão que dá título ao poema já apresenta a morbidez e o fascínio da morte típicos da geração ultra-romântica. Assim, o texto II confere com o solicitado, o que elimina a alternativa E.
O terceiro trecho pertence ao poema "Medo de Amar", de Casimiro de Abreu. A referência que o eu-lírico faz ao medo da mulher amada também é uma característica típica da segunda geração e associar texto e característica já nos conduz à alternativa B.
Por fim, o quarto trecho pertence ao poema "Bandido Negro", de Castro Alves. Seu vocabulário com a palavra "algemas" faz já menção à temática libertária característica da terceira geração. Portanto, este trecho fica de fora das possibilidades de resposta correta.

A terceira questão contrasta dois textos distintos de Álvares de Azevedo, um pertencente à sua face Ariel e o outro à terceira face, a auto-irônica. Portanto, as percepções do eu-lírico sobre o amor são completamente distintas, e qualquer alternativa que aponte semelhanças completas entre eles está errada. Isto exclui a alternativa D e E. A alternativa A está incorreta pois considera que a poesia da face Ariel de Azevedo apresenta uma realização amorosa completa entre os amantes, o que não ocorre na 2ª geração romântica. A alternativa B está incorreta porque considera que NÃO há rebaixamento do tema amoroso, sendo que a ironia sobre o tema o faz. Por fim, resta a alternativa C, correta, visto que a relação amorosa, na face Ariel de Azevedo, é sempre incompleta, platônica.

A última questão solicitou a correspondência entre os textos e as características apresentadas. O texto A, de Gonçalves Dias, enfatiza bastante a relação do eu-lírico com a natureza. Portanto, corresponde à evasão na natureza. O texto B, de Casimiro de Abreu, apresenta como temática principal a tristeza. Portanto, correponde à melancolia. O texto C, de Junqueira Freire, enfatiza o desejo de morte. Portanto, relaciona-se à evasão pela morte. O texto D, de Gonçalves Dias, expressa a saudade da pátria durante o exílio. Portanto, relaciona-se ao saudosismo. Por fim, o texto E apresenta no trecho "Vivi na solidão" a consciência de solidão, fechando a relação dos textos com as características.

22.10.06

Romantismo

Olá, pessoas.

Eu gostaria de ter deixado esse post aqui antes, para atender às solicitações de vocês, mas não foi possível. Provinhas e alguns trabalhos para corrigir fazem isso com o fim-de-semana de uma pessoa :P. De qualquer jeito, cá estamos.

Para quem ainda não aterrisou: prova depois de amanhã sobre ROMANTISMO. Do contexto histórico à segunda geração, cai tudo! E aqui fica uma pequena revisão.

O Romantismo vai inaugurar, na segunda metade do século XIX (1836 a 1881 no Brasil), a arte de expressão burguesa. Embora o movimento árcade já tenha, no período anterior, hasteado, no campo ideológico, a bandeira dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que fundamentam as revoluções burugesas (Revolução Francesa, Revolução Industrial e Independência das Colônias Americanas), a forma de se fazer arte (todas elas, plásticas, cênicas, verbais) era pautada nos ideais clássicos da Antigüidade Greco-Romana, e que foi extensamente repetido pela aristocracia. Assim, esteticamente, até o Arcadismo, as artes eram muito mais voltadas para o ideal aristocrático de beleza (ficando a Idade Média e o Barroco com alguns elementos de apresentação da arte popular, apenas). Somente no movimento romântico que a estética da arte vai se alterar para representar a concepção de belo da buguesia (nova classe no poder).

Essa concepção vai se pautar pela ênfase na liberdade de criação, que chega à iconoclastia (quebra dos modelos pré-existentes) e à tese da expressão livre do gênio, crença que procurava assegurar a originalidade do texto através da não-revisão deste quando concluído. Isso faz com que a arte romântica oscile entre momentos grandiosos e outros de péssima qualidade.

Junto a essa liberdade criadora, liberdade de expressão, predomina também a busca pelo mundo ideal preconizado pelo lema da revolução francesa na arte romântica. Por isso os personagens do romantismo vão ser tipos cuja diferença de caráter sempre será bastante demarcada. Mocinhos são mocinhos mesmo, perfeitos estetica e moralmente. E os vilões serão sempre a escória total da humanidade, sem nenhum traço de humanização, perdão ou virtude. Pessoas e sentimentos estarão, neste movimento, sempre retratados de maneira completamente parcial e exagerada. O amor, tema tão caro aos românticos, é a mola propulsora do mundo, que pode transformar um homem num louco ou num santo, de acordo com seu caráter original.

Neste momento, uma pausa para não haver a confusão propiciada pelo nome do movimento. Romantismo vem de romance, mas romance nesse caso não é sinônimo de história de amor (essa conotação só foi atribuída depois, e por causa do movimento). Romance é uma estrutura narrativa que foi particularmente desenvolvida nesse período. Lembram da epopéia? Era o gênero narrativo lido feito pela aristocracia. Para se opor a ela, os românticos se dedicarão ao romance: gênero narrativo em prosa, de estrutura mais simples e cujos personagens são centrados nos tipos comuns do cotidiano.

Voltando à programação normal, vamos revisar um pouco das duas primeiras gerações. As distinções entre elas são bastante evidentes: a primeira assinala-se pelo indianismo, a exaltação da pátria e de sua natureza peculiar; a segunda ressalta-se pela melancolia, pela tristeza, pelo pessimismo e a vontade de fugir da realidade. Enquanto há um otimismo e uma utopia inerentes aos românticos indianistas/nacionalistas, os ultra-românticos (ou byronianos, ou geração mal-do-século) apresentam um profundo desgosto pela vida, que ora os faz desejar a morte, ora se manifesta na busca pelos vícios, pelo exílio voluntário numa vida decadente e cínica.

Já que ainda é domingo e há um pouquinho de tempo, aqui fica uma dica de dois filmes que podem ajudar vocês a entenderem um pouquinho melhor o espíritos desses dois grupos de poetas. Pocahontas e Moulin Rouge :P. É sério! O primeiro vai exaltar a natureza americana, a vida natural dos índios, sua bondade natural, seu desapego material, sua perfeição de caráter. No segundo temos em Christian (olha só, Cristão) apaixonado por Satine (Satânica... oposição interessante), um ingênuo escritar que se envolve com uma criatura do "sub-mundo" de Paris. Por esse amor, Christian se envolve profundamente no ambiente decadente do bordel, cai nas garras do absinto (bebida de poder tão destrutivo que matou muita gente e se tornou ilegal) e se torna um pária (como o vemos no início do filme). Observem que enquanto Christian é ingênuo (como a face Ariel de Álvares de Azevedo), a realidade que ele vê é rica, colorida, feliz. Quando Christian perde sua ingenuidade (como a face Caliban de Azevedo), essa realidade passa a ser cinza, escura, decadente.

É isso. Espero ter ajudado.
Até a próxima!

7.10.06

Instruções de apoio para o trabalho e exemplos

Demorou mais do que eu gostaria a oportunidade para que eu pudesse sanar as últimas dúvidas de vocês, mas finalmente estou podendo redigir este post.

Primeira coisa: relaxem! Vocês estão complicando mais o trabalho do que ele realmente é. A reescritura não é um tratado de pós-graduação, nem estou exigindo de vocês uma linguagem rebuscada. A linguagem que vocês devem usar deve ser coerente com a ambientação que vão dar ao diário, essa é a única exigência. Se vocês planejaram fazer um diário informal, podem fazer uso de uma linguagem informal também, com gírias e abreviações até. Só tenham o cuidado de fazer com que essa informalidade seja coerente, também, de acordo com o perfil desse eu-lírico (a idade dele, por exemplo).

Segundo: como um diário é um texto pessoal, me primeira pessoa, usem essa primeira pessoa sim! Como eu falei em sala, a premissa do trabalho é: como Cecília Meireles teria organizado o planejamento do Romanceiro da Inconfidência durante sua viagem à região de Ouro Preto através de anotações em um diário? Ou seja: à medida que ela conhece o ambiente e o pesquisa, quais são as imagens que ela começa a selecionar para produzir os poemas? É claro que nem tudo que está no planejamento necessariamente está no livro: podem faltar idéias, sobrar ou ela pode, ao longo do diário, mudar de opinião e modificar a forma que havia planejado para produzir um poema X.

Abaixo vou deixar um exemplo para vocês de como organizar um capítulo (data) do diário. Para vocês não se perderem, nele está a reescritura do Romance VIII ou Do Chico-Rei. Por favor, não copiem. A originalidade é um dos critérios de correção do trabalho de vocês. E, lembrando: entrega dia 17/10.

Qualquer dúvida, mandem um comentário por aqui que eu respondo assim que puder.

Até mais,
Bianca


20/04/1940

Os folclores que compõem essa cidade são realmente incríveis. Contaram-me hoje a história do Chico-Rei e ela é tão pitoresca que não poderia deixar de transformar em poema.

Dizem que o Chico-Rei era um escravo do Congo, rei de seu povo e que aqui trabalhou na mineração do ouro. Conseguiu, de algum modo, alforriar o próprio filho, mas ele mesmo, embora fosse um líder dos outros escravos, não conseguiu a própria liberdade.

É interessante... isso de liberdade é tão presente na história e nas estórias daqui! Os homens buscaram o ouro, buscaram os diamantes, buscaram a independência, sempre querendo liberdade, liberdade e sempre sendo sufocados pelos poderosos. Quando penso nisso me vem a imagem de um grande tigre, um tigre que ruge, que assusta, que devora os que tentam alcançar a liberdade... Acho que posso usar isso: o tigre ruge e o Chico-Rei conta sua história, sua falta de liberdade. Talvez eu possa mostrar no fim do poema que todos, no fim das contas, eram explorados, escravos. Cativos.

4.10.06

Ciclo do diamante, ciclo da liberdade e Destinos

Continuando a transposição dos slides para vocês, deixo aqui os slides sobre os dois últimos ciclos do Romanceiro: o ciclo do diamante e o ciclo da liberdade.

Até sexta-feira, no máximo, deixo para vocês aqui um exemplo de como estruturar o trabalho. Tentarei também emitir cópias para entregar a vocês na próxima semana. Lembrando, como vocês já devem saber, a data de entrega do trabalho ficou para o dia 17/10, a terça-feira após o feriado.


Ciclo do diamante:
O ciclo do diamante é narrado principalmente através da história de Chica da Silva, de seu amante, o contratador Fernandes e do Conde de Valadares. Trata-se de uma passagem relativamente breve, em que o rio Tejuco, fonte de diamantes da época (e por isso, atual Diamantina) lamenta a sorte de seus personagens. Rio e homens, em nova união da natureza com o ser humano, vão compartilhar o lamento.

O fim do ciclo do diamante traz os maus presságios que intitulam o último romance antes da mudança de cenário. Chega-se a hora de se fundarem as Arcádias e da palavra liberdade começar a ser espalhada na região. Neste romance, o eu-lírico critica a vilania dos fidalgos “que reinam mais que a Rainha” e a exploração abusiva da região “Sobre o tempo vem mais tempo. / Mandam sempre os que são grandes: / e é grandeza de ministros / roubar hoje como dantes. / Vão-se as minas nos navios... / Pela terra despojada, / ficam lágrimas e sangue”.


Ciclo da liberdade:

Com o Cenário após o Romance XIX insinua-se o mau tempo vindouro para a liberdade, freqüentemente retratada como luz, assim como a razão. A névoa “chega, envolve as ruas, / move a ilusão de tempos e figuras” e “vai formando / nublados reinos de saudade e pranto.”

A este Cenário lúgubre, segue-se a Fala à antiga Vila Rica e os romances que contam a criação das Arcádias, templo para nascerem as idéias, que vão se espalhando no fim das estrofes como se espalharam pela cidade. A idéia de liberdade se espalha e leva o povo a tentar ter sua própria riqueza, ainda que através de diamantes extraviados.

Morre um príncipe de Portugal, filho de D. Maria I, a rainha louca, e esta é também uma esperança que morre. Nas exéquias (ritos fúnebres) do príncipe, muita agitação. Alguma coisa está sendo tramada - "já ninguém quer ser vassalo". Por isso as idéias começam a se transformar em ações e a formular a bandeira da Inconfidência. Inicia-se a semana santa de 1789 e, com ela, a caracterização dos personagens envolvidos: o Alferes (Tiradentes), Joaquim Silvério, Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Marília, o Embuçado (personagem folclórico cuja veracidade não se conhece, que teria tentado salvar Cláudio Manoel da Costa) além dos tipos populares da cidade: as velhas piedosas, os tropeiros, as pilatas (prostitutas), as sentinelas, os delatores, e personagens menores do período (Francisco Antônio, o sapateiro Capanema, o padre Rolim).

Sem seguir uma ordem cronológica clara, os poemas vão se alternando, apresentando os diversos pontos de vista sobre os mesmos eventos.

Com os romances dedicados aos personagens vão se alternando ainda os que narram os eventos (conversas indignadas, seqüestros de bens, sentenças, o leilão dos bens de Tiradentes, seu enforcamento – em 21 de abril de 1792, três anos depois de ser preso - e esquartejamento) e os poemas avaliativos (Fala aos pusilânimes, Do jogo de cartas, Das palavras aéreas, Da reflexão dos justos).

Ambição gera injustiça.
Injustiça, covardia.
Dos heróis martirizados
nunca se esquece a agonia.
Por horror ao sofrimento,
ao valor se renuncia.

E, à sombra de exemplos graves,
nascem gerações opressas.
Quem se mata em sonhos, esforço,
mistérios, vigílias, pressas?
Quem confia nos amigos?
Quem acredita em promessas?
Que tempos medonhos chegam,
depois de tão dura prova?

Quem vai saber, no futuro,
o que se aprova ou reprova?
De que alma é que vai ser feita
essa humanidade nova?


Epílogo:

O Epílogo, como já estudamos ao nos debruçarmos na estrutura do texto épico, é a parte final de um poema narrativo, na qual o narrador (ou eu-lírico, no caso do texto de Cecília) faz uma avaliação final dos eventos por ele contados. Este epílogo, porém, ao invés de ser apenas um poema, compõe-se de vários, os quais contam os destinos dos personagens envolvidos. Podemos, por isso, também chamar esta parte de Destinos.

Novamente a transição do ciclo da liberdade para o epílogo é feita através de um Cenário. Trata-se de um ambiente ermo, abandonado e já sem vida, como ficaram as Minas após as penas aos inconfidentes (as mortes e os degredos).

Seu início se dá com as falas dos maldizentes, que comentam o destino dos inconfidentes e, depois, o destino de Gonzaga, que, após prisão na masmorra da Ilha das Cobras foi degredado para a África negra (Moçambique), onde se casou com Juliana Mascarenhas. Neste epílogo apresenta-se também o destino de Marília (Maria Dorotéia), inconformada com as notícias do casamento. Ela se desfigurou pelo tempo (olha o carpe diem!) e pela Inconfidência e finaliza o poema com seu testamento.

Outro destino apresentado é o de Alvarenga Peixoto (também poeta, cujo pseudônimo era Alceu, desterrado em Angola ), Dona Bárbara Eliodora, sua "estrela do norte" e de Maria Ifigênia, filha do casal.

A eles segue-se uma mudança de cenário para se apresentar o destino de D. Maria I, que mandara executar os inconfidentes da sua coroa, acaba se tornando prisioneira do seu próprio destino: ela que executava tantos, com masmorras , desterros, forcas, torna-se prisioneira da loucura.

Por fim, vem a Fala aos Inconfidentes mortos, avaliação final dos eventos narrados, num cenário desolador e triste, quando nada mais resta dos sonhos e ideais pretéritos.

Treva da noite,
lanosa capa
nos ombros curvos
dos altos montes
aglomerados...
Agora, tudo
jaz em silêncio:
amor, inveja,
ódio, inocência,
no imenso tempo
se estão lavando...
não, não se avistam
Grosso cascalho

da humana vida...
(e covardias!)
vão dando voltas
no imenso tempo -
à água implacável
do tempo imenso,
rodando soltos,
com sua rude
miséria exposta...

Parada noite,
suspensa em bruma:
os fundos leitos...
Negros orgulhos,

Mas, no horizonte
ingênua audácia
do que é memória
e fingimentos
da eternidade,
e covardias
referve o embate
de antigas horas,
de homens antigos.

E aqui ficamos todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente do purgatório...

Quais os que tombam,
em crimes exaustos,
quais os que sobem,
purificados?

Agora, tudo jaz em silêncio: amor, inveja, ódio, inocência, no imenso tempo se estão lavando, declara a poetisa na Fala aos inconfidentes mortos. No horizonte eterno há de ficar sempre o anseio de liberdade, e só o purgatório do tempo está apto às ações vis e nobres dos homens da terra.

29.9.06

Voltando ao Romanceiro da Inconfidência

Como eu prometi, volto a postar os slides sobre o Romanceiro da Inconfidência. Se houver tempo, no fim de semana, eu posto um exemplo de adaptação de um dos poemas para a estrutura do diário. Só não vale copiar: critividade é um dos critérios para a atribuição da nota! :)

Os ciclos

Podemos dividir os fatos que compõem a narrativa de “Romanceiro da Inconfidência” em três partes ou ciclos:
a) ciclo do ouro;
b) ciclo do diamante;
c) ciclo da liberdade (ou da Inconfidência)

Todos estes ciclos envolvem a ascensão e a queda dos elementos. Notem que há uma gradação de valor nos elementos: ouro, diamante, liberdade. Como o ouro e o diamante, a liberdade brilhou intensamente nas Minas Gerais, mas como o ouro e o diamante, a liberdade trouxe desgraças, masmorras e mortes.


Ciclo do ouro

Fala inicial: apresenta a proposta geral do Romanceiro. O eu-lírico se apresenta dentro das cenas que comporão a história, com uma percepção mesmo física do que acontece (sinto, percebo, vejo, avisto). Ocorre aqui uma espécie de materialização desse eu-observador, que relata o que encontra em momento presente, mas já conhecedor dos fatos em sua totalidade. Os julgamentos e o convite à reflexão são típicos de passagens como

Ó meio dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem ordena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cova do tempo
cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados...
-liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Na mesma cova, as palavras,
o secreto pensamento,
as coroas e os machados,
mentira e verdade estão.

Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva,
onde os homens padeceram
sua vasta solidão...

Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra as rocas da ignorância
rebenta nossa aflição.

Choraremos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
Inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão.


Cenário: apresenta o passeio do eu-lírico pela cidade de Vila Rica. Nesta passagem, o eu-lírico se conecta com o passado, vislumbrando os acontecimentos de outrora nos detalhes da cidade e da paisagem. O cenário (os lugares da cidade) e o eu-lírico compartilham os mesmos sentimentos e lembranças, numa fusão do eu com a paisagem que muito lembra a fusão dos árcades com o espaço natural.

Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.
As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.
De coração votado a iguais perigos,
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos.
Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças
Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustém nos longos horizontes,
tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.
Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,
por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastara, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.

Romances: começam com a busca pelas jazidas até sua descoberta, envolvendo as lutas e mortes que se deram no processo, provocadas pela ambição desmedida. Depois, a partir da descoberta de Ouro Preto (e conseqüente fundação de Vila Rica), aprofunda-se o olhar sobre a cobiça e a ganância dos homens, que, no início, matava animais, florestas e vai se alastrando, como doença, até se matar tudo que há no caminho. É uma doença que se perpetua no tempo, atravessando as gerações “E gerações e mais gerações de netos afundariam nesse abismo” e atingindo a sociedade de modo a se registrar em seu folclore (é o ouro que cria o tipo folclórico “caçador feliz”. É o ouro que provoca o assassinato da donzela pela mão de seu pai) e em sua história (o assassinato de Felipe dos Santos morto e esquartejado pela fúria do Conde de Assumar). O Brasil é então apenas o menino adormecido, mas já prenuncia nesse herói a força e a coragem do Alferes inconfidente.
A partir daí, oscilam os elementos históricos factuais com os registros do cotidiano e da sociedade da época do ciclo do ouro. O romance “Da transmutação dos metais” brinca com o mito medieval dos alquimistas e o romance “De Nossa Senhora da Ajuda” descreve uma cena fictícia do Alferes ainda criança tendo sua sina demarcada nas suas súplicas e nas que o eu-lírico faz à santa.

18.9.06

Sobre Caramuru

Vocês me pediram muito para postar aqui sobre Caramuru, tema do nosso exercício desta semana. Pois bem, vamos fazer uma pequena revisão.

O poema Caramuru foi escrito por Frei José de Santa Rita Durão em 1781. Trata-se de um épico bastante tradicionalista, o qual resgata todas as regrinhas clássicas de uma epopéia: 10 cantos, em oitava rima do tipo ABABABCC, cujo assunto é uma vitória de um grande herói de uma passado remoto, a qual representa a vitória de uma nação.

Essa história, por que real, é a de Diogo Álvares Correia, náufrago português que conseguiu se tornar grande chefe dos índios tupinambás na Bahia, e auxilou a fundação da cidade de Salvador. O poema ficcionaliza a vivência de Diogo no Brasil até o momento em que este se tornou, efetivamente, funcionário do governo português. Vai, portanto, do naufrágio até o encontro com os representates nomeados para a capitania da Bahia, de volta a Salvador. Desta ficção, o que se sabe que realmente aconteceu foi o relacionamento de Diogo com Paraguaçu, a viagem deles à Europa para que se batizassem e se casassem e o retorno ao Brasil. O restante é baseado em folclore, em lendas, sem registro histórico oficial e, por isso, elementos de veracidade duvidosa.

Com "Caramuru", Santa Rita Durão aborda o indígena do ponto de vista da catequese (Diogo no livro é um personagem muito religioso), a qual servirá como elemento de dominação, de amansamento e de transformação do índio de um selvagem para um humano. Observem que Paraguaçu, a índia por quem Diogo se apaixona e se casa, é descrita com traços brancos, e sabe falar português. Ou seja, dentro de tantas índias que foram oferecidas a Diogo, a única digna de sua atenção (por que no livro ele é um herói casto) é aquela que se assemelha com uma européia.
As demais, como Moema - cuja morte por afogamento, na tentativa de alcançar o navio em que Diogo parte com Paraguaçu para a Europa, é o momento de lirismo mais intenso no livo - não mereceram a atenção do herói.

Caramuru - A invenção do Brasil, seriado da rede Globo para a comemoração dos 500 anos de descobrimento do nosso país, em 2000, por sua vez, é uma releitura irônica sobre os mitos da colonização brasileira e de seus heróis. O Diogo que assistimos na obra de Guel Arraes, transformada em filme tempos depois, é o típico anti-herói: medroso, covarde até, inconseqüente muitas vezes, bobo outras tantas. As mulheres da narrativa (Paraguaçu, Moema, Isabelle) têm Diogo na mão, sempre conseguindo dele o que querem. No lugar do herói, corajoso, que domina os índios por sua inteligência e que guerreia com bravura, temos, no filme, um artista sonhador, quase inocente, que se deixa cair facilmente nas situações arquitetadas pelos outros personagens. O domínio dos tupinambás vem por uma mera obra do acaso (ou da fé).

Se Diogo não é o grande herói da obra, quem toma seu lugar? Para resolver isso, é só lembrar quem consegue transformar toda situação da obra a seu favor. Pensem no final, em que Isabelle tenta, de todas as formas, conseguir o poder casando-se com Diogo... Quem consegue fazer com que a vilã se dê mal? Paraguaçu. A índia, esperta como ela, faz com Diogo o que quer, e consegue também manipular até Isabelle, uma cortesã experiente e cheia de lábia. Paraguaçu e Diogo se complemente em ingenuidade e esperteza e juntos é que vão criando essa espécie de identidade nacional, malandra, preguiçosa, sonhadora. Por isso o filme vai além de um relato de um evento histórico: ele acaba simbolizando a criação da identidade nacional, que mistura o romantismo, a melancolia e os altos ideais de Diogo, a Europa, com a picardia, a sensualidade e a praticidade dos indígenas, representada por Paraguaçu.

É importante assinalar também uma visão do índio muito marcante em toda obra. Longe de ser um "bom selvagem" ou de apenas um "selvagem", o índio brasileiro é apontado às vezes com malícia e uma certa dose de preconceito, às vezes com bom humor e boa dose de realismo. A cultura índia, em seus costumes rituais, como a antropofagia, e em sua liberdade sexual, além do desapego à matéria, e o conseqüente choque com os valore europeus são várias vezes reforçados no filme, com bastante isenção até. Porém, ao mesmo tempo, boa parte dos momentos cômicos da obra baseiam-se na caricatura do índio como preguiçoso ou promíscuo, o que pode revelar um estereótipo talvez bastante afastado da realidade. O indígena, no filme, é uma figura pitoresca, ambígua, engraçada, mas da qual raramente se tem uma relação de identidade como se tem com personagens mais realistas (a sensação de conhecer alguém daquela maneira ou de ser um pouco parecido com ele).

Bom, é isso. Entre filme e livro, conforme estudamos, há uma relação de paródia bastante marcante. Na intenção de resgatar o livro e atualizá-lo, personagens foram acrescentados, retirados, modificados (como é o caso de Moema). Tudo para se reforçar a ironia sobre a ingenuidade propagada pelo texto de Santa Rita Durão e enfatizar-se as reais motivações dos homens europeus da época (exploração de ouro, da colônia e de sua gente). Ter uma visão ampla de uma e de outra ora é de extrema importância para que se possa discutir a identidade nacional, conforme vista no passado e no presente. Ufanismo e utopia confrontam-se, na mesma história, com criticidade e ironia. Estas são palavrinhas chaves para entender-se as obras.


Espero que o texto tenha ajudado.
Beijos e até a próxima.

8.9.06

Romanceiro da Inconfidência

Como vocês pediram, vou deixar os slides da aula sobre o livro. A cada dia, nesse feriadão, deixarei para vocês um slide, para que os posts não fiquem excessivamente longos. Qualquer dúvida, gritem! : )

Tema
O tema principal é a própria Inconfidência Mineira que dá título à obra. Porém, para escrever sobre isto, Cecília Meireles busca o passado mais remoto de Vila Rica (Ouro Preto), que se inicia com a descoberta do ouro, envolve a caracterização da sua sociedade no século XVIII, descreve o levante republicano dos inconfidentes e suas principais figuras humanas e narra o fim trágico.
A digressão histórica é importante porque ao fim de cada etapa histórica narrada, há o mesmo movimento de opressão por parte de quem tem poder. A cada vez que a população, a massa, sonha com riqueza e prosperidade, há uma desgraça, como a de Felipe dos Santos e a do contratador Fernandes, que prenunciam o destino dos inconfidentes. É como se Cecília, com essa repetição de estrutura narrativa, lembrasse-nos que no Brasil, a história sempre se repete: os ricos e poderosos lutam para manter seu poder a qualquer custo e a grande massa segue sofrendo, eternamente alijada das preciosidades que pode encontrar no mundo. Seja, elas de ouro, de diamante, ou de liberdade.

A visão do tema
A perspectiva que a autora apresenta sobre o tema no conjunto de poemas é uma visão dramática e lírica dos eventos. Não esqueça: O “Romanceiro da Inconfidência” é um texto que parte de uma reflexão sobre a história concreta do levante mineiro e alcança uma dimensão lírica, tornando-se uma interrogação sobre o sentido das ações humanas. Não é um texto que se limita a lamentar o que houve, mas sim ao conjunto de elementos que, sempre se repetindo, perpetuam as desigualdades sociais e o sofrimento dos poucos que sinceramente lutam pela causa.


Estrutura

Cenários
São poemas que descrevem ambientes e marcam as mudanças de atmosfera no romanceiro. Nos cenários ocorrem um ponto alto de lirismo, em que o “eu” reflete sobre o espaço para nele localizar os acontecimentos. É como se o ambiente físico e o eu-lírico se comunicassem em lembranças, conversassem, compartilhassem da mesma visão piedosa dos acontecimentos. Isto nos lembra muito a relação homem-natureza do período árcade, em que a natureza é um elemento vivo, cheio de alegria e vida, e que entra em comunhão com o estado pérpetuo de carpe-diem do eu-lírico. Aqui, embora os sentimentos sejam outros, ocorre a comunicação entre ambos.
Lembre-se: cada cenário representa uma transição para uma nova etapa do poema. Assim, a primeira parte, conhecida como ciclo do ouro, é introduzida por um cenário. Quando o próximo cenário surgir, começa a etapa seguinte, o ciclo do diamante, e mesmo com as demais etapas do texto.

Falas
São poemas em que o eu-lírico intervém na narrativa, tecendo comentários e convidando o leitor a refletir sobre os fatos revividos no relato. As falas não têm a mesma regularidade de distribuição que os cenários. Um mesmo ciclo (ou etapa da narração) pode apresentar mais de uma fala.

Romances
São os oitenta e cinco poemas que reconstituem a história, compondo seu fio narrativo. Os romances não são dispostos, necessariamente, na seqüência cronológica dos acontecimentos: ora aparecem isolados, ora constituem-se em verdadeiros ciclos (o de Chica da Silva, o do Alferes, o de Gonzaga, o da Morte de Tiradentes, o de Gonzaga no exílio).
Muitas vezes (especialmente na Morte de Tiradentes) há uma seqüência de romances de mesmo tema, que apresentam as vozes internas das diversas pessoas envolvidas nas cenas narradas. Estas vozes internas geralmente estarão assinaladas ou com itálico ou por parênteses.

13.8.06

O Uraguai e A Missão

O que vocês não me pedem de possível que eu não tento fazer? Deixo sim considerações sobre o filme que assistimos sexta e sobre os elementos da ficha com o roteiro de trabalho. Vamos lá?

Quem assistiu ao filme com atenção, não terá dificuldades em perceber que há uma nítida oposição em relação a quem é o grande vilão das guerras guaraníticas, se comparada sua história à de O Uraguai. Jamais poderíamos dizer que o jesuíta é o inescrupuloso que quer a todo custo poder, como Basílio da Gama retrata no padre Balda e no sacrílego Baldeta. Se alguém é vilão em A missão é o governo português, que ordena a luta, e o governo espanhol, que poderia ter agido em defesa dos índios, mas que não o faz para poder lucrar com a venda e a compra ilegal de escravos.
A Igreja encuralada pela sua perda cada vez maior de poder na Europa, se omite, tentando manter ainda a ordem dos jesuítas viva, tanto em Portugal (o Marquês de Pombal, em 1750 ainda não havia expulsado os jesuítas - o que foi apenas questão de tempo) como no restante da Europa. Acaba sendo um pouco "vilãzinha", visto que se preocupa com o poder. Mas não podemos esquecer que a tentativa sustentava missões ainda em outros lugares, já que não afrontava a Espanha nem Portugal, não dando motivos para o extermínio da ordem.
O exército, como vocês devem lembrar, não queria lutar. E isso é dito claramente por um dos soldados. O comandante (pena que Gomes Freire de Andrade não receba o crédito) lembra que é uma questão de dever. Neste ponto, o filme reforça a visão crítica da guerra apresentada pelo poema, ainda que por motivos diferentes faça a crítica.
E o índio? Mocinho, sim, mas um mocinho diferente. Observem: o índio de O Uraguai é moralmente superior e um herói moral que não precisa de brancos para se defender. Afinal, a guerra foi vencida, segundo Basílio da Gama, pela vantagem tecnológica portuguesa. O que se confirma se lembrarmos que as guerras guaraníticas duraram 17 anos. O nativo sabia usar a natureza em seu favor para guerrear. Porém, em A Missão, o índio aculturado na Missão de São Miguel logo é vencido pelos portugueses e na Missão de São Carlos ele conta com a defesa do jesuíta. Aliás, não era essa a função dos jesuítas, proteger o índio da escravidão? Um pobre ser desgarrado da cultura católica, destinado ao inferno, para os preceitos da época, que precisava ser protegido como se protege um animal em uma reserva ecológica. Coitado do índio sem o jesuíta: não ia nem saber cantar em latim, nem tocar violino! Coisas tão úteis na selva, não é mesmo?

Bom, acho que isso ajuda vocês, não é mesmo? Se precisarem de mais, mandem um recado por aqui, um sinal de fumaça para o email ou usem e abusem do atendimento na escola.

Beijo pra todo mundo e até a próxima!

9.8.06

Missões - Crônica de um Genocídio

Tanto A Missão quanto O Uraguai podem ser entendidos como crônicas, no sentido de registro histórico, do genocídio dos povos guaranis que habitavam a região ainda indefinida de sul do Brasil, norte do Uruguai. Mas o tíulo desse post não é especificamente sobre nenhum desses dois textos de que já falamos e sim sobre um livro acerca do mesmo assunto, de Décio Freitas. Missões - Crônica de um Genocídio é, aliás, o nome deste material, não-ficcional, que trata justamente das questões políticas, sociais e históricas que envolveram a atuação dos padres jesuítas dentro das missões, sua relação com os índios, e a ação final das coroas portuguesa e espanhola.
Fica aqui uma dica de leitura para quem quiser se aprofundar mais sobre o tema. E, para dar mais água na boca, fiquem com alguns trechos da resenha feita pela revista "Aventuras na História" sobre o livro de Freitas. O link para o texto completo da resenha, no fim do post.
Ah, e para não perder o costume: beijo pra todo mundo e até a próxima!


Você olha para o mundo de hoje e vê: montes de desempregados sem perspectiva de trabalho; crianças sem escola nem lugar para dormir, descartadas do mundo. Milhões sem acesso à mínima educação, menos ainda à arte e à cultura. Fome de um lado, superabundância do outro. Guerras em nome de interesses privadíssimos. Dispondo de indignação moral, mesmo que de pouca, qualquer um tem vontade de fazer alguma coisa, nem que seja apenas sonhar com um mundo menos injusto. Por exemplo: uma sociedade de pleno emprego, em que não haja as vergonhosas filas nas madrugadas à procura de uma empreguinho humilhante. Escola e saúde para todo mundo, crianças bem tratadas, com sala de aula, roupa, atenção. Ninguém com fome e ninguém com riqueza acumulada para ostentação. Progresso tecnológico, desenvolvimento artístico, alfabetização para todos.
Todos nós brasileiros já ouvimos falar no colégio que essa utopia igualitária já existiu. Floresceu por décadas, antes de ser destruída em uma guerra pra lá de violenta, bárbara. Foi a realização dessa utopia, conhecida genericamente como Missões, que levou o historiador Décio Freitas a um de seus mais conhecidos livros, publicado pela primeira vez em 1982, quando a miséria brasileira nem era tão explícita quanto agora, quando mal saíamos da ditadura militar e buscávamos alternativas de futuro, quando fazia o maior sentido retomar experiências luminosas do passado para confrontar a obscuridade do presente.

(...)
As Missões, também chamadas "reduções", sujeitaram o índio, que passou a viver em vilas organizadas, a praticar a monogamia, a trabalhar em horários certos, a prover o futuro de médio prazo, a ser católico.
O outro lado lembra, porém, coisas positivas: se a questão era preservar a cultura dos índios, ele diz que os jesuítas fizeram isso: aprenderam seu idioma, descreveram sua gramática e, com ela, ensinaram futuras gerações. E mais: se as Missões sujeitavam os índios antes livres, caçadores, poligâmicos, que plantavam somente o que comeriam nos tempos imediatos, sem preocupação com o futuro, elas também significaram uma alternativa concreta de vida. Fora delas, o que aconteceu realmente com os guaranis e outros tantos povos indígenas? Foram exterminados, regra geral, ou se aculturaram na marra, passando a viver a vida dos brancos sem a menor chance de preservar o que quer que fosse.

(...)
Passados para domínio português, os padres e índios tiveram de deixar as Missões. Os índios resistiram ainda depois de os jesuítas terem aceitado a transferência imposta por Madri. Mas foram chacinados, em guerra sistemática e moderna, comandada por Gomes Freire de Andrade, figura que ganhou um enorme elogio literário em O Uraguai, poema épico de Basílio da Gama que perpetuou uma interpretação ufanista, pró-lusitana e antijesuítica. Décio diz que os padres "imaginaram erroneamente que a própria Companhia de Jesus, um dos baluartes do colonialismo, permitiria que ultrapassassem os limites dos interesses do colonialismo". Em compensação, "as alternativas do colonialismo não deram melhor resultado: produziram, simplesmente, a genocida extinção dos guaranis", escreveu.

Leia a resenha completa em http://historia.abril.uol.com.br/edicoes/13/obraprima/conteudo_historia_47205.shtml#top